[Crítica] Special Correspondents

Special Correspondents

Ricky Gervais tem se notabilizado nos últimos anos por desconstruir temas caros e espinhosos. Foi assim com Derek – 1ª Temporada, em parceria com a Netflix, mostrando um protagonista prejudicado mentalmente, que pratica caridade com homens de idade avançada, e foi assim em Life’s Too Short, que tinha no ator anão Warwick Davis seu objeto de análise, além de The Office, que notabilizava pelo seu humor incômodo. Special Correspondents chega à televisão em parceira com a Netflix discutindo a manipulação midiática através de um história aparentemente leve.

Este é o terceiro longa-metragem dirigido pelo humorista, e começa com a abordagem passivo agressiva do radio-jornalista Frank Boneville (Eric Bana), um canastrão famoso por suas matérias e por seu estilo despojado e encantador, como uma versão jornalista de James Bond. Ao seu lado há a dupla de tímidos e desajustados, a assistente Claire Makepeace (Kelly MacDonald) e o técnico de som Ian Finch (Gervais), que tem em sua insegurança o principal paradoxo e diferença em relação ao chefe de reportagem. A vida pessoal de Ian passa a ser miserável graças à evolução do quadro de crise com sua esposa Eleanor (Vera Farmiga), que já parece farta dele, passando a flertar com outros homens.

O estado de miséria existencial toma conta do ideário dos dois homens, o que facilita a aceitação de um trabalho no exterior, tendo que ambos visitar o Equador para cobrir um conflito bélico. Do alto da ignorância dos dois colaboradores, surge um acidente com os documentos e pagamentos da tal viagem, e os dois têm de ficar em solo americano. Depois de discutirem, decidem forjar as informações a respeito do conflito, mentindo descaradamente, com a ajuda de dois funcionários de um café de origem latina, que passam a fazer parte da trama farsesca, emprestando seus sotaques para ludibriar os chefes e os ouvintes, se valendo da xenofobia e generalização comum ao comportamento dos estadunidenses para alcançar o êxito em sua tentativa de manterem desconhecida a realidade dos fatos.

O teor das mentiras passa a aumentar em virtude da rivalidade entre Frank e outro âncora, e chegam ao cúmulo de inventar um sequestro do apresentador e do técnico de som. A partir daí, começa uma série de eventos que visam explorar a desgraça dos homens e capitalizar em cima disso, invertendo toda a moral de O Primeiro Mentiroso, primeiro filme dirigido por Gervais, incluindo na mentira uma arrecadação de fundos organizada por Eleanor, que se torna uma espécie de namoradinha da América às avessas.

O humor de Special Correspondents mora em detalhes muito sutis do texto, que se fossem apresentados em esquetes curtas funcionariam à perfeição, mas que não conseguem sustentar um filme inteiro, fator que piora graças à pouca inspiração empregada na fina camada de ironia que o argumento tenta alcançar.

Gervais consegue evoluir gradativamente como diretor, apresentando planos interessantes, como já havia se notado em Caindo no Mundo. Mesmo com uma mensagem carregada de pieguice, é notável um certo ineditismo na abordagem do drama, primeiro com o rompimento da condição de capacho de Ian, passando pela inversão de protagonismo entre ele e o personagem de Bana, fato este que não salva o resultado final de um humor morno, que funciona bem para a televisão mas peca muito no cinema.