Crítica | Street Fighter: A Batalha Final

A adaptação do mais notável jogo de luta da Capcom começa com um letreiro horroroso, anunciando Jean Claude Van Damme como o herói do filme – que por sua vez, faz o Coronel William Guile – e Raul Julia como segundo papel mais importante, o vilão e chefe da Shadaloo General M. Bison. Logo, Ming-na Wen aparece como a repórter de guerra, Chun Li, para depois mostrar-se Andrew Bryniarski, como o capanga Zangief. Isso tudo ocorre com aproximadamente três minutos de exibição, onde já se descaracteriza todo o cânone e história desses personagens.

Na pequena introdução, também se mostra E. Honda (Peter Navy Tuiasosopo) como operador de televisão havaiano – ele é japonês no jogo – e Balrog (Grand L. Bush) como cameraman. Daí, se seguem outras tantas liberdades poéticas, inclusive com a fusão dos background de Blanka e Charlie, no papel de Robert Mannone, e a aproximação de Kylie Minogue como Cammy. Os cenários parecem com o que era visto nos piores filmes produzidos por Roger Corman, com a exceção que os filmes referenciados têm algo a falar ou a acrescentar, enquanto esse só parece um teatro de bonecos feito por homens de meia-idade.

Shadaloo é uma cidade cheia de estereótipos, habitada por pessoas igualmente caricatas, como a apresentação esdrúxula de um arco sobre contrabando de armas, capitaneada pelos lutadores Ken (Damian Chapa)  e Ryu (Byron Mann), que faziam negócios com o contrabandista Sagat, interpretado por Wes Studi, um sujeito baixo, ao contrário do mestre de muay thai, que tinha mais de dois metros, e que recebe seus parceiros de negócios com armas que jogam bolinhas de brinquedo.

Quase tudo no filme é risível e explicito, em especial a experiência conduzida por Dhalsin (Roshan Seth) que faz o experimento que transforma Charlie em Blanka, imitando alguns aspectos de Laranja Mecânica. A falsa morte de Guile também beira o ridículo, só não é mais mal feita do que o cabelo ruivo tingido sobre a cabeça do mestre em spakhati.

Steven E. De Souza dirige seu primeiro longa solo e consegue conceber um dos piores textos já vistos no cinema de ação,mesmo que em seu currículo haja participações nos roteiros de Duro De Matar, O Sobrevivente48 Horas. Esse novo filme se assemelha mais a condição paupérrima em que escreveu Comando Para Matar, junto ao escritor de quadrinhos Jeph Loeb.

Apesar de adaptar o jogo Street Fighter 2, esse filme faz mais jus à outra franquia, em especial quando aparece a lancha das forças unidas contra a Shadaloo, com um veículo tão mal feito que parece um brinquedo de Comandos em Ação – Gijoe só que em tamanho real.

Obviamente que a pecha de cinema de autor foi alcunhada para obras mais inteligentes e inventivas, mas Street Fighter aparentemente é realmente uma obra própria de Souza, a despeito até do produto que o originou, tanto no quesito liberdades narrativas quanto na profusão de péssimos estereótipos, com T. Hawk (Gregg Rainwater) reduzindo a crença religiosa indígena há um simples amuleto da sorte, como a faixa do cherokee, até a visão limitada de Guile, que decide assassinar Blanka, só porque ele tem uma aparência monstruosa.  O texto ainda tem a audácia de fazer uma piada na luta entre Honda e Zangief, colocando sons iguais ao dos filmes com Godzilla.

A famigerada batalha final é terrível, primeiro com a tatuagem da bandeira americana no bíceps do astro marcial belga, segundo com a mudança drástica de físico e visual de Bison, com um dublê que não tem qualquer semelhança com Julia. O contexto piora, quando se nota a pretensão de ser este um filme anti-guerra. Há de se escolher o que é mais risível, o retorno dos mortos de personagens, entre eles o protagonista, que causa choro na sua parceira Cammy, a redenção de Zangief que se torna um cara bonzinho, o modo como Sagat e DeeJay (Miguel A. Núñez Jr.) tentam roubar o dinheiro de seu chefe, o fato de Blanka e Dhalsim decidirem morrer sem nenhum remorso, ou por fim, a pose no final após uma explosão como os seriados de Power Rangers.

Ainda há no final, uma tentativa de gancho para continuação, com uma cena pós-crédito mais desonesta e pedante que o total dos 102 minutos do filme que Souza orquestra. Quase nada em Street Fighter funciona, ao menos em Mortal Kombat, filme do ano seguinte, as coreografias de luta são bem feitas, aqui não há apuro visual ou sequer atores comprometidos em fazer um produto palatável para o público voltado a filmes de kickboxer, tampouco com quem é aficionado por videogames. O que se vê é uma obra completamente baseada em um teatro infantil que tem cenários dignos de risos e atuações envergonhadas da parte de quem participa, sem exceção nenhuma. Mesmo Van Damme parece estar anestesiado, visto que seu personagem não consegue distinguir nem o certo do errado, quando se depara com a morte iminente do amigo, há poucos filmes tão equivocados quanto esse, sendo portanto uma pérola entre as adaptações de videogame para o cinema.

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