[Crítica] T2 Trainspotting

Mais de vinte anos depois, Mark “Rent” Renton (Ewan McGregor), Simon “Sick Boy” Williamson (Johnny Lee Miller), Frank “Franco” Begbie (Robert Carlyle) e Daniel “Spud” Murphy (Ewen Bremner) retornam suas vidas e dramas em T2 – Trainspotting, continuação direta do filme Trainspotting: Sem Limites, de Danny Boyle, que retorna também à direção da continuação. Já em seu início, o diretor resgata seu estilo despojado de misturar cinema com uma estética de videoclipes, mostrando o personagem central anterior, Rent, tentando viver seus dias normalmente, sem os fantasmas que antes o cercavam, até que um baque acontece e o mesmo decide voltar a cidade da sua infância.

Ao chegar em seu destino, Mark tem alguns confrontos, e vê cada um de seus antigos comparsas em uma situação-limite diferente. Cada um, a sua maneira, mantem o vício como pode, mostrando que todos ali permanecem usuários, ainda que não seja necessariamente da heroína que co-protagonizava o filme anterior. A nostalgia entra em contraponto com a mudança de alcunha de cada um deles, saindo assim os antigos apelidos para saltar aos olhos do espectador a identidade civil de cada um, com nome, sobrenome e novas ocupações para eles.

Nenhum dos personagens investigados conseguiu um futuro minimamente decente, e cada um guardou um dos pecados anteriores como fardo na atualidade. A geração junkie dos anos noventa não conseguiu superar seus próprios problemas e vícios, substituindo um evento terrível por outro, tendo o insucesso como fator propulsor na vida de cada um deles.

Ao contrário do que é comum em filmes de drama, em T2 Trainspotting cada um dos intérpretes, seja eles coadjuvantes ou não, tem seus momentos dentro da sequência, seja na dúvida crucial que McGregor reproduz, após sua personagem tentar uma vida normal; seja Miller com sua tentativa nada corretar de fazer negócios marginais com sua amante, a bela Veronika (Anjela Nedyalkova); como também na performance raivosa de Carlyle, que mesmo com o passar dos anos, não teve grandes mudança no comportamento de Franco. Mas a surpresa positiva certamente é a de Bremmer, que se dedica a trabalhar fundo a personalidade suicida de sua personagem, que assim como o ator, também tem uma subida de significado imensa, sendo a sua trajetória a mais metalinguística até então.

O circulo vicioso onde estão inseridos Mark, Simon, Franco e Danny é trágico e as cenas repetidas do primeiro filme reforçam a ideia de que o destino dos rapazes/homens é inexorável, não importando as circunstâncias que os cercam, bem como as pessoas que os acompanham ou acompanharam. A felicidade definitivamente não existe, não há redenção possível ou qualquer possibilidade de desfecho, sequer agridoce, quanto mais positivo. As almas carentes do quarteto têm a necessidade de reaproximar o espírito dos antigos amigos, mesmo que os laços de intimidades deles estejam longe de serem os mesmos, tanto pelo hiato que a relação sofreu, quanto pelo amargor causado pela atitude final de Renton em Trainspotting. Os momentos finais de T2 Trainspotting misturam o frenesi típico dos picos de heroína que habitaram a vida dos quatro, com a adrenalina típica da vida comum, mostrando que a existência deles se resume na interseção entre esses dois universos distintos.