[Crítica] Tabu

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O filme do português Miguel Gomes começa com uma trilha sonora composta por um piano frenético – que executa Insensatez, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes – acompanhado de uma fotografia em preto e branco. Esse cenário, que lembra e faz referência ao cinema mudo, logo se “contradiz”, com escravos africanos fazendo seus rituais na floresta, com direito a muitíssimo barulho.

Tabu se divide em atos (prólogo, dois capítulos e um epílogo). A primeira parte é intitulada Paraíso Perdido, e introduz um trio de personagens peculiares: Aurora (Laura Soveral), uma geriátrica e ranzinza senhora, Pilar (Teresa Madruga) uma vizinha de meia-idade interessada nos assuntos da primeira, e Santa (Isabel Muñoz Cardoso), serviçal da idosa, cabo-verdiana e semi-analfabeta. Nesta parte, é mostrada a senilidade de Aurora – na verdade a questão é um tanto ambígua – que em seus momentos finais cede à paranoia, acreditando que a “governanta” está tramando contra sua vida. O estado mental deficiente dela é discutido até o seu epitáfio, onde surge uma figura misteriosa, que passa a narrar outra trama.

A segunda parte, em flashback, mostra Aurora ainda moça – interpretada dessa vez por Ana Moreira. Chama-se Paraíso, e encena a infância e juventude da moça, vivida no continente africano. A personalidade dela que já era introspectiva, e piorou ainda mais após a morte de seu pai, e tal característica só seria “aplacada” após seu casamento.

A vida adulta de Aurora é envolta de muitas questões espinhosas, como relações extraconjugais, amores proibidos, gestação indesejada, rompimentos bruscos de paixões etc. A ausência de música em algumas cenas dramáticas destaca ainda mais a singularidade da película, e faz dela uma obra anacrônica, ao mesmo tempo em que ela é reverencial ao cinema de F. W. Murnau.

Tabu fica “envelhecido” antes mesmo de ser exibido, pois não é um fruto de sua época – isso não é demérito nenhum ao produto de Miguel Gomes. Só pela coragem em fugir de fórmulas comerciais de se fazer cinema, já vale a pena ser conferido e o elogio ao realizador, mas é muito mais que isso. Em alguns períodos, o filme é verborrágico, em outros quase não há diálogo, as imagens mostram toda a mensagem, e para chegar-se a um equilíbrio desses é necessário muito talento e trabalho, predicados que sobram neste longa-metragem lusitano. Os maneirismos e brincadeiras com a estrutura do guião acrescentam qualidade à obra, e juntos aos temas propostos: esquecimento, amor, solidão e velhice – compõe um quadro belíssimo.