Cinema

[Crítica] As Tartarugas Ninja (1990)

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AS Tartarugas 1990

Os primeiros instantes do filme de Steve Baron exibem uma narração de uma jornalista preocupada com a violência e uma onda de assaltos em Nova York. Em seguida, uma sequência bem agressiva com a repórter April O'Neil (Judith Hoag) sendo atacada por um grupo de trombadinhas que tentam assaltá-la. Ela é salva de maneira misteriosa por benfeitores anônimos e sorrateiros, estes que seriam os heróis da história. As Tartarugas Ninjas é a primeira versão live action dos quadrinhos de Kevin Eastman e Peter Laid, ainda que o cunho infantil seja muito mais semelhante ao popular desenho do que com ao das hqs.

O salvamento de April foi a primeira ação do quarteto. Michelangelo (Michelan Sisti), Leonardo (David Forman) e Donatello (Leif Tilden) comemoram muito a ação, ao contrário de Raphael (Josh Pais), que lamenta muito a perda de sua arma branca. É nesse personagem que se concentram os conflitos mais discutíveis, como a culpa e falta de resolução, e o único que consegue fazê-lo se acalmar ligeiramente é o Mestre Splinter (Kevin Clash), o rato que serve de mentor e criador dos heróis.

A realidade dentro do filme é idealizada, mostrando uma caricatura da metrópole norte-americana e no uso de uma paródia de alguns elementos utilizados nas histórias do Demolidor, como a versão engraçada dos vilões orientais do diabo, manifestados através do Clã do Pé, grupo criminoso misterioso que passa ao largo da investigação de O’Neil, fato que faz o destino dos quatros e da repórter novamente se cruzar.

Apesar dos sustos, não falta ao grupo capacidade de viver em harmonia, e logo eles tornam-se amigos, com uma empatia justificada pela carência de todos, tanto dos mutantes, que não formam elos com ninguém da superfície, quanto da mulher desamparada pela falta de segurança ou de garantias de cuidado pelo Estado. É nesse cenário caótico que o vilão Destruidor (James Salto) consegue estabelecer seu terror, a despeito de seu visual carnavalesco que mais parece um cosplay do que um figurino de um filme.

Além de obviamente ter a arte ninja como semelhança, há também a condição de rejeição por parte dos adeptos, características semelhantes entre o clã do pé e as tartarugas. Diferenciam-se pela filosofia de cada um: a agressividade desmiolada do vilão e a face zen do rato, que não se permite olhar para o diferente como um inimigo a ser trucidado. O cunho infantil do roteiro faz alusões até interessantes do ponto de vista ético, como a preocupação fraterna de Leonardo, a busca por identidade de Rafael e a aceitação de Casey Jones (Elias Koteas) no grupo, personagem bem diferente física e ideologicamente dos mutantes, posto na trama para fazer par com April.

Os momentos de humor são datados e as piadas são voltadas para o público juvenil mas funcionam bem, graças principalmente ao carisma dos heróis, que têm uma trajetória trôpega, mas ainda crescente. O resultado final é um filme divertido e inventivo nas curiosas cenas de flashback, atingindo uma harmonia que não se repetiria no restante da franquia, em especial por misturar o humor típico dos cartoons e tomando emprestada uma violência gráfica semelhante ao exploitation da década anterior, a exemplo dos filmes de Paul Verhoeven, ainda que sua versão seja suavizada. As Tartarugas Ninjas tem méritos interessantes para um filme de orçamento pequeno, se valendo de efeitos visuais práticos e que infelizmente não teria sua estética seguida em frente nos outros cine-episódios.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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