[Crítica] Tatuagem

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Após uma série de (bons) curtas-metragens, como Simião Martiniano – O Camelô do Cinema e Mata Adentro – e uma leva de colaborações como roteirista, entre eles Árido Movie, Baixio das Bestas e Amarelo Manga, Hilton Lacerda retorna com a realização de longas-metragens – o que não ocorria desde Baile Perfumado, de 1977 – com o polêmico drama Tatuagem, cuja temática e o viés contestatório são muitíssimos atuais.

Na primeira fala de Clécio Wanderley, personagem de Irandhir dos Santos, está presente o que seria a tônica do filme. Seu grito é um brado que preconiza uma das poucas armas dos marginalizados personagens, que infelizmente têm muitos iguais a si na realidade contemporânea. O deboche constitui uma das poucas armas cabíveis aos sempre “caçados” homens que amam outros homens. O bom humor consegue cooptar até alguns dos pensamentos mais conservadores. A despeito disso, a iconografia visual escolhida por Lacerda usa alguns signos fálicos que remetem à “preferência” de seus heróis, sem qualquer receio ou rastro de pudor. O roteiro é usado livremente e sem medo de chocar, ao contrário da atitude subserviente e condizente com o discurso conservador e moralista.

O grupo Chão de Estrelas reúne os mais diversos artistas, de diferentes grupos sociais e orientações sexuais. A ambição é grande, a despeito da época da produção – 1978, com a Ditadura ainda em voga – e também do pouco orçamento com que dispunha. Mesmo com tudo isso, o conteúdo de seus shows – largamente expostos em tela – tem conteúdo político e econômico bastante crítico e conteste.

A sintonia entre a arte e libertação sexual é mostrada de modo sensível, leve – essa tônica é um dos melhores pontos da obra, é emotivo sem perder o tom. Mesmo nos momentos onde a nudez é explícita, esta é feita de modo natural, passando longe de ser panfletário ou gratuitamente expositivo. Quando Fininha (Jesuíta Barbosa), um jovem militar, aquartelado, com um background confuso, como mostrado em cena anteriormente, adentra o ambiente do grupo artístico, há um pequeno confronto entre dois mundos, duas ideologias que aos poucos vão se dobrando, uma a uma. O que antes era uma dúvida torna-se uma certeza, e Fininha, enfim, se entrega ao torpe prazer que tanto negava a si mesmo, sem culpa, longe de olhares inquisitivos, em um mundo completamente invertido do que lhe era comum. Após as cenas singelas, ele volta ao seu quartel, passa por um corredor polonês – a punição não tardaria, a fantasia para si ainda era algo temporário, distante de sua rotina.

Aos poucos, o tecido da realidade é arranhado, o preconceito e a diferenciação de tratamento são expostos de ao menos duas formas: uma com o filho de Clécio, que sofre problemas na escola, e com Fininha, que é encarado por alguns dos integrantes da trupe como a presença do Regime, a repressão, o cumprimento das ordens do Exército, o que o faz ser tachado até de infiltrado. Após ter de ouvir tudo isso, Fininha vai a uma reunião familiar, cercado de senhoras que falam sobre pecado, castigo divino e moléstia, funcionando como abutres, que voam sobre a carne pútrida, valorizando conceitos retrógrados, requentando questões constrangedoras, moralistas e medievais.

Como era de se esperar, a censura enquadrou o espetáculo do Chão de Estrelas, mas o grupo tenta lutar. De modo bravo, ostenta as suas apresentações inclusive com o acréscimo de Fininha. Mas uma das noites é interrompida pela ação da polícia, o que obviamente acaba com a carreira militar do enclausurado moço. Ele migra para São Paulo e até tenta manter contato com sua família, mas deles recebe reprimendas, faces descontentes e decepcionadas pelo flagrante desejo que incorria em seu coração.

O final, mostrando a feitoria de um filme, serve como recurso metalinguístico da própria realização de Hilton Lacerda, responsável pela direção, roteiro e argumento. Tatuagem é uma ode à libertação, não somente da sexualidade, mas também da alma, do espírito e do sentimento, que por vezes é enclausurado pelo social. Lacerda faz tudo isso de modo sentimental, sem descuidar da verossimilhança e da triste realidade repleta de preconceitos. É uma das demonstrações do que o cinema brasileiro é capaz de alcançar.