Cinema

[Crítica] Taxidermia

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Taxidermia funciona como uma colcha de retalhos. Inspirado nos contos do escritor Lajos Parti Nagy, o filme conta três causos bizarros que têm em comum as gerações de uma família disfuncional e repleta de esquisitices em seu cotidiano.

O primeiro ato foca no soldado Moroscovany (Csaba Czene), que, ao enfrentar um frio intenso, tem a sexualidade reprimida. A busca pelo prazer sexual se pauta no voyeurismo, sendo que seus alvos são sempre do sexo feminino. Suas fantasias alcançam ares bizarros e flertam com o bestialismo e dores intensas. A vagina, para ele, é um objeto de adoração; mesmo a mais remota menção ao órgão sexual feminino o faz delirar e se decepcionar por não alcançar o orgasmo. Suas taras fazem com que seu superior pense que ele fantasia com sua rotunda esposa e, por isso, o pobre soldado perece. A banheira, onde o protagonista antes dormia, é um signo da sexualidade e torna-se uma representação de sensações pueris, como uma mensagem alertando que o bizarro varia de cabeça a cabeça.

A segunda parte é protagonizada por Kalman (Gergely Trócsányi), o bebê com rabo que cresceu estupidamente e tornou-se um adiposo esportista que participa de um torneio cujo objetivo é atestar a quantidade de comida que um corpo humano pode aguentar. Bravamente ele defende as cores da Hungria. Curioso é que os órgãos oficiais olímpicos reconhecem o torneio de glutonaria como um evento legitimamente esportivo. O lazer entre o núcleo de personagens gordos é incomum e bizarro mesmo quando coincide com o que é comum ao sujeito "normal".

A terceira geração dos Balatony mostra Lajus (Marc Bischoff), um taxidermista que contrasta com seus antepassados, inclusive com seu ainda vivo pai, que era uma lenda do esporte. Os quilos que os separam servem para mostrar o abismo filosófico entre os dois. A relação entre os parentes é cortada pela visão degradante do moço em relação ao seu antecessor, e pautada no ódio provocado no filho. O pai, mesmo em uma forma decadente e imóvel, insiste em desprezar o rapaz de forma muito arrogante. O filho, por sua vez, despreza por completo a asquerosa figura que o progenitor se tornou, tanto fisicamente como também de gênio e caráter. No entanto, Lajus sente-se deprimido por brigar com ele, e ao encontrá-lo pela última vez, decide torná-lo o protótipo de sua obra de arte suprema.

O conjunto de imagens filmadas por György Pálfi é essencial para que se entenda sua mensagem, numa tentativa de registrar a trajetória humana na Terra enfatizando o grotesco. Os closes na cauda de Kalmar preconiza a característica animalesca e sobre-humana, mostrando o homem como um ser também bestial. Já no episódio do chaveiro de feto, há uma pitada de humor negro, elemento frequente no decorrer da película, a fim de mostrar o cinismo inerente ao ser humano.

O intuito é causar nojo, asco e ojeriza e comover pelo barbarismo e, claro, pela escatologia, emulando lágrimas com suor provindos das axilas de um gordo. Lajus, através de sua máquina de auto-empalamento (o mecanismo que o faz desfalecer), permite que ele se torne imortal, ainda que esta seja uma escultura incompleta. O filme fecha com um detalhe no umbigo, símbolo do nascituro, representando o nascimento de algo para o clã Balatony, que teve trajetória encurtada em um sentido e estendida em outro.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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