[Crítica] O Lagosta

The Lobster 1

The Lobster é um filme que funciona fundamentalmente para quem é afeito à filmografia de seu diretor, Yorgos Lanthimos, realizador dos anteriores Alpes e Dente Canino, inclusive reprisando grande parte dos conceitos dos produtos citados. A sinopse do longa é bizarra, fazendo valer conceitos como apatia, concessão e obediência sem discussão.

A primeira metade do roteiro de Efthymis Filippou funciona quase perfeitamente, gradativamente revelando uma sociedade distópica, baseada em um sistema insano de repressão a quem não possui um par matrimonial, que captura os divorciados e solteiros para alocá-los en um hotel, onde todos teriam 45 dias para conseguir encontrar seu par, sob a pena de, ao final do prazo, ser transformado em um animal. A história é narrada a partir do olhar de David (Colin Farrell), que escolhe para si a possibilidade de virar uma lagosta.

O esforço para não transmutar faz com que os alocados no hotel tentem achar aspectos em comum, para finalmente formar um par e se ver livre do destino terrível. As instruções dentro da pousada reforçam o maniqueísmo, simplismo e o discurso de ódio, evocando a cultura de estupro, funcionando bem como paródia da banalização comum aos tempos atuais, onde qualquer falácia torna-se automaticamente válida, somente para fortificar argumentos sem base e veracidade.

Apesar de discutir a comum dependência humana mútua, The Lobster pouco acrescenta, e utiliza-se de um argumento que piora ainda mais ao revelar que a resistência ao regime também vive sob os mesmos preceitos imbecis, demonstrando que não há fuga minimamente aceitável, ainda que em paralelo com o quadro político mundial. Ainda assim, é demasiado simplista para um filme que busca ser irônico. A narração executada por Rachel Weisz ajuda a desmistificar ainda mais o texto que, a priori, deveria evoluir o destaque aos defeitos do estado atual.