Crítica | The Room

The Room é um caso a ser estudado. Dentre milhares de filmes ruins e mal feitos, ele se destaca por ser horrivelmente bom. E não significa qualidade, muito pelo contrário. O longa é um caso onde todos os planetas se alinharam para fazer o pior filme possível, entretanto o resultado foi uma comédia involuntária, e não o drama planejado.

O responsável por cometer esta obra é Tommy Wiseau, um cidadão americano proveniente de algum lugar da Europa (?), sotaque estranho e fortuna de origem desconhecida. O sonho de Tommy era ser ator, então decide produzir, dirigir, escrever e atuar seu próprio filme. Acontece que ele está mais próximo de Ed Wood do que de Orson Welles. Eis que surge The Room.

Os bastidores de produção são tão interessantes quanto a obra em si. Quando mais se sabe dos bastidores, mais legal o filme se torna, pois você assistirá notando cada bizarrice e sabendo “Ah, esta parte foi inserida depois, e ficou muito pior do que deveria”.

Para início de conversa, Wiseau é um péssimo ator, um péssimo diretor, péssimo roteirista e não tem/tinha noção alguma de como produzir um filme. Ele gastou pequenas fortunas ao prolongar desnecessariamente as filmagens, comprou duas câmeras ao invés de alugar, modificava cenas de forma completamente aleatória, exigia que todo o elenco estivesse presente nas filmagens de todas as cenas, raramente ouvia opiniões dos outros, dentre outros desastres.  É inacreditável como o resultado final tenha ficado tão ruim, e por isso tão divertido.

Podemos notar problemas até no poster do filme, onde temos a bela face de Tommy Wiseau com cabelos mais curtos, sendo que no filme ele tem cabelos longos. Mas existe uma justificativa plausível: esse foi o poster de divulgação do filme, que permaneceu em uma grande placa cinco anos antes da estréia do filme, ou seja, ele deixou o cabelo crescer até o início das filmagens. E o aluguel dessa placa custou milhares de dólares por mês. Isso mesmo, cinco anos antes da estréia. Quando as filmagens estavam longe de começar.

A ideia do filme seria um drama sobre Johnny (Wiseau), um cidadão americano médio, relativamente bem sucedido, que estava prestes a se casar com sua amada Lisa (Juliette Danielle). Porém, Lisa inicia um caso amoroso com o melhor amigo de Johnny, Mark (Greg Sestero), e tudo isso culmina em um desfecho trágico. A história é simples, nada especial, poderia ser contada em cinco minutos. Porém, o roteiro de Wiseau tentou desenvolver os personagens, fazer o público criar empatia com Johnny e apresentar um drama bem forte. Ao invés disso, 95% do filme é um amontoado de cenas que não agregam nada, absolutamente nada, à trama. Personagens aparecem e somem do nada, situações que serão completamente ignoradas no minuto seguinte, mudanças de comportamento repentinas, nada dá certo. E por causa de todos esses absurdos é que o filme se torna tão engraçado!

Mesmo quando a mãe de Lisa diz, do nada, que tem câncer, Lisa reage da forma mais indiferente possível, e tal informação nunca mais é citada. O jovem Denny (Philip Haldiman), além de se mostrar um amante do voyeurismo, diz que ama Lisa, e na frase seguinte diz que ama outra pessoa e que deseja se casar com ela. Johnny pede conselho para seu amigo psicólogo Peter (Kyle Vogt), e na mesma cena, quando Peter dá um conselho, Johnny fica nervoso porque o amigo “vive bancando o psicólogo”. Incongruências de roteiro, frases extremamente artificiais, tudo isso reflete o talento patético do diretor.

Menção honrosa para as várias cenas de sexo longas, chatas e que, obviamente, não agregam nada ao roteiro.

As atuações são um show de horrores à parte. Grande destaque ao próprio Wiseau, com suas caras e bocas, entonações péssimas, desenvoltura inexistente e, claro, o jeito de falar bem peculiar. É o pior ator do filme, com folga. Para agravar ainda mais as péssimas atuações, os diálogos não funcionam, são mal escritos e utilizam palavras e expressões que são corriqueiras apenas na mente dele mesmo. Quem assiste ao resultado final deve pensar que o filme foi gravado em 2 dias. Ledo engano. Algumas cenas de poucos segundos demoraram horas devido à incapacidade de Wiseau decorar falas simples, ou até de querer regravar algumas cenas pelo simples fato de querer. O famigerado chroma key do terraço daria um texto à parte. Por que não gravar num terraço real? Porque não.

Não se limite a assistir compilações de “melhores” cenas no Youtube. Ignore as notas baixas (e altas) que estão pela internet. Assista a esta obra na íntegra e ria de cada momento que transborda falta de aptidão cinematográfica. Diferente de vários filmes trash, este tentou ser de alta qualidade, gastou cerca de seis milhões de dólares para ser produzido e o resultado é simplesmente uma das maiores obras de comédia involuntária da história. Tommy Wiseau prova, de uma vez por todas, que não basta ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Ele tinha duas câmeras, alguns milhões de dólares, muitas ideias e nenhum talento. Agora pare de ler este texto e faça um favor a si mesmo: assista The Room.

PS.: o trailer abaixo é oficial. Confira no site do filme caso duvide.

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