Crítica | Thor

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Amantes do cinema pipocão, regozijem-se! Começou a temporada do verão norte-americano, época em que os blockbusters dominam o circuito. E abrindo esse ano temos Thor, adaptação dos quadrinhos da Marvel, que estreou no Brasil no dia 29 de abril, uma semana antes do lançamento nos EUA. Desde que a tradicional editora decidiu levar por conta própria seus personagens para o cinema, ao invés de somente vender os direitos, esse já é o quarto filme. Pra quem não lembra, os outros foram os dois Homem de Ferro e O Incrível Hulk. Teremos ainda esse ano Capitão América, e em 2012 toda essa cambada se reúne naquele que promete ser o filme mais massa veio de todos os tempos da história do cinema mundial, Os Vingadores.

Mas voltemos ao Deus do Trovão, que afinal de contas é o assunto desse review. O personagem foi criado em 1963 por (adivinhem) Stan Lee, Jack Kirby e Larry Lieber, tendo inspiração nas lendas da mitologia nórdica. Como todo super-herói, teve várias interpretações e reformulações ao longo dos anos, mas mantendo-se sempre como um dos mais poderosos e respeitados do Universo Marvel. A exceção, talvez, fique por conta do Universo Ultimate, que deu uma visão mais realista a todos os heróis (e justamente por isso tem sido fonte de muitos dos conceitos do universo cinematográfico da Marvel). Nele, a princípio Thor é visto somente como um maluco superpoderoso.

Um super-herói que é um deus, enfrenta divindades e outras criaturas mágicas, mas que também atua num cenário, digamos, mundano? E convive com o Homem de Ferro, por exemplo, um herói inteiramente baseado em ciência? Não precisa ser nenhum gênio pra perceber que esse era umas das adaptações mais difíceis de serem feitas, sem cair no ridículo ou descaracterizar demais o personagem. E o resultado é digno de aplausos, pois o filme conseguiu ser bastante consistente, mantendo a essência dos quadrinhos e atualizando com bastante simplicidade aquilo que precisava ser modificado, pra dar um ar mais crível e, principalmente, permitir que a história se encaixe no universo que vem sendo desenvolvido nos filmes anteriores.

A história é a praticamente a mesma da origem clássica das hq’s: Thor é filho de Odin, rei de Asgard, um mundo de seres poderosos que ajudaram à humanidade em eras remotas e foram vistos como deuses, dando assim início ás lendas. Jovem, arrogante e amante das batalhas, Thor acaba reacendendo uma antiga guerra contra os Gigantes do Gelo (criaturas de outro mundo, Jotunheim), e acaba sendo punido por seu pai. Destituído de seus poderes e sua arma hyper motherfucker, o martelo Mjölnir, ele é jogado em Midgard, a Terra, pra aprender a ser humilde, paciente, sábio e todas as qualidades de um bom rei, afinal o loirão é o herdeiro do trono. Aqui, ele tromba com a equipe de físicos liderada pela doutora Jane Foster, que investiga fenômenos cuja explicação parece esta ligada a Thor e seu povo. Enquanto isso, em Asgard, o irmão do herói, Loki, se mostra muito ardiloso e… bem, continuar seria entregar a trama toda, então fiquemos por aqui.

Como dito acima, o filme é bastante coerente em todos os seus aspectos. Ação, humor, drama, romance (o pacote tradicional, enfim) se equilibram muito bem durante toda a história. O diretor Kenneth Branagh fez um trabalho impecável, inclusive nas cenas de pancadaria, com as quais não tinha muita experiência, visto que sua fama é “shakespeareana” e teatral. Fato que é percebido na sua excelente direção de atores, todos muito bem em seus papéis. Chris Hemsworth, protagonista e praticamente desconhecido, surpreende ao dominar com total segurança todas as suas cenas. Ele conseguiu passar muito bem a confiança e arrogância do Thor inicial, e sua posterior evolução. O intérprete de Loki, Tom Hiddleston, era outro desconhecido, pelo menos pra mim. E também se sai muito bem, sendo dissimulado em alguns momentos e louco surtado em outros, ou seja, um Loki perfeito. Sendo ele mesmo, ou seja, FODA PRA CARALHO, Anthony Hopkins É Odin e ponto final. Fechando o elenco principal, temos a oscarizada, badalada, e coisinha linda Natalie Portman no papel de “interesse romântico”. No espaço que tem, ela faz o básico e não compromete. Os demais atores têm participações menores e cumprem muito bem seus papéis na trama.

E a questão das mudanças, o tormento dos fãs dos quadrinhos? A mais sensível delas é o conceito de o que SÃO Asgard e seu povo. Enquanto nas hq’s eles são os deuses nórdicos e pronto, o filme partiu pra linha do “magia é ciência que não entendemos”, colocando-os como simplesmente seres superiores de outra dimensão. Confesso que fiquei um pouco desgostoso com isso antes de assistir, mas acaba que tudo flui naturalmente e não afeta em nada os elementos clássicos do personagem. Sobre o visual, amplamente criticado durante a divulgação, também funciona a contento. Saíram o metal e couro tipicamente viking e entraram armaduras estilosas tipo Cavaleiros do Zodíaco. O que era necessário, por conta da mudança conceitual. Há um estranhamento no início, preciso admitir, mas com um pouco de boa vontade tudo fica bem.

Mais algumas mudanças vieram nessa mesma linha: já que não são exatamente deuses, os asgardianos não são imortais, Odin está envelhecendo e já planeja passar o trono para Thor, coisa que nos quadrinhos nunca existiu. Também muda a forma como o Pai de Todos fica caolho, nas hq’s ele mesmo arranca um dos olhos, num sacrifício pra ter a sabedoria divina, enquanto no filme ele o perde em batalha. Outras mudanças muito questionadas referem-se aos personagens Heimdal e Hogun, interpretados por um negro e um oriental, respectivamente. Politicamente correto? Com certeza, mas não chega a ser uma afronta, já que no filme eles NÃO são deuses nórdicos (aliás, muito boa essa desculpa). E estão muito bem representados, principalmente o primeiro, que é o Guardião da Ponte do Arco-Íris, e tem a visão além do alcance (mas não usa a Espada Justiceira), sendo tratado como um ser mais místico e enigmático que os demais asgardianos. Ficou bastante fiel aos quadrinhos. Por outro lado, a total ausência de Balder foi meio triste, visto que ele é o melhor amigo de Thor e um dos personagens mais importantes de suas histórias. Mas não vejo como ele poderia ser encaixado no filme, visto que os Três Guerreiros e a Lady Sif já tiveram um papel bem pequeno, apesar de muito bom.

Obviamente não faltam a cena pós créditos e easter eggs para os fãs (destaque pra aparição de um certo arqueiro), típicos dos filmes da Marvel. No fim, Thor consegue ser bastante próximo do tom de Homem de Ferro, no sentido de aliar a ação com uma dose de drama/seriedade com os momentos de descontração, sem cair na galhofa de um Quarteto Fantástico, por exemplo. O maior defeito do filme também é bem típico: o tempo. A jornada do herói, ou melhor, a jornada moral do herói, acaba sendo meio abrupta, com Thor passando muito rápido de imaturo a altruísta. É algo que se sente, que faz o filme perder alguns pontos e não chegar ao nível ÉPICO, mas nem de longe chega a comprometer. Agora é aguardar o Capitão América em julho e depois achar uma máquina do tempo pra já pular pro meio do ano que vem e assistir Os Vingadores!

Texto de autoria de Jackson Good.