Crítica | Tio Drew

Charles Stone III, diretor da comédia O Rei do Jogo e do genérico de ação protagonizado por mulheres Lila & Eve surpreendeu o mundo ao realizar um filme sobre esporte e superação com não atores – entre jogadores, como Kyrie Irving e Aaron Gordon e ex-jogadores da NBA, incluindo aí Shaquille O’Neal, Chris Webber, Reggie Miller, Nate Robinson e até a campeão mundial de basquete feminino Lisa Leslie – que foi muito elogiado, trata-se de Tio Drew, produção em parceria com a Amazon que chegou a ser cogitado para a temporada de premiações nas categorias de maquiagem.

A historia é engraçada, começa como um falso documentário da ESPN, no formato 30/30, explicando a importância de uma lenda do basquete de rua, fruto da lendária quadra Rucker Park, no Harlem – local que foi alvo do documentário #Rucker50, que inclusive, seria o torneio que o filme retrata – um sujeito tão mágico que seria ele a figura da silhueta símbolo da NBA, claro, com o cabelo mais comportado, isso dito pelo próprio Jerry West, que seria o real modelo. Nessa parte, se vê figuras como Dikembe Motumbo, Steve Nash e outras figuras do Harlem e do resto dos Estados Unidos, louvando a memória desse ótimo jogador, que desapareceu.

Paralelo a essa historia, corre do medíocre Dax (Lil Rel Howery), um aficionado pelo esporte. Quando criança se inspirava demais em Michael Jordan, e ia bem, até ser bloqueado por Mookie Bass, que na fase adulta é feito por Nick Kroll. O insucesso da infância persegue ele, mesmo na fase da meia idade, quando treina um time amador. Após Dax fracassar, seu caminho cruza o de Drew, como dois astros cadentes, que vêem em ambas misérias a possibilidade de melhorar, embora o homem geriátrico já não tenha nem vontade nem disposição para competir, precisando ser convencido – o que aliás, nem demanda tanto esforço do treinador.

Kyrie Irving já vinha fazendo o personagem em comerciais da Pepsi desde 2012, tanto que Uncle Drew virou seu apelido. É engraçado como a maquiagem tosca funciona bem, e torna o filme em algo despretensioso e ao mesmo tempo mágico. A sensação de que o basquete é o evento e coisa mais magnífica e mágica do mundo é muito bem

Há pequenas menções e reverências do filme, como o personagem Lights, de Reggie Miller, que tem toda a compleição física de Kareem Abdul Jabbar, a lenda do basquete que se tornou ator e discípulo de Bruce Lee – há de se lembrar também que Reggie tinha momentos homéricos de discussão com Spike Lee, nos jogos contra o New York Knicks. Se da parte dramática, na relação entre os personagens principais que vem a formar o quinteto titular do Harlem Money há um show de momentos bem piegas e clichês do roteiro de Jay Longino, sobra espontaneidade e naturalidade por parte do elenco, em especial Irving e Shaq, que finalmente se redime pelos péssimos Kazaam e Steel, retomando uma boa participação como havia feito em Blue Chips.

É um bocado estranho como, mesmo tendo maquiagens e efeitos muito pesados e risíveis, mesmo com uma história de fundo bem fraca para cada um dos personagens, há também muita alma e muita graça na comédia. Tio Drew está longe de ser um filme hilário, suas piadas são muito básicas, mas há claramente um esforço por parte de quem fez o filme acontecer para que este seja uma reverência ao basquete de rua, a tradição do Harlem em formar jogadores profissionais e amadores, e claro, a prática dos showmans do garrafão.

A magia e atmosfera da localidade, da comunidade e do Rucker Park é muito bem registrada, além é claro desse ser uma ode ao basquete clássico, pondo frente a frente um crossover que reside no imaginário dos fãs mais ardorosos da NBA, que adoram colocar frente a frente times do presente e do passado, e a batalha moral entre Chris Webber e Aaron Gordon. Tio Drew mistura elementos típicos dos filmes mais melosos de Adam Sandler com uma genuína necessidade de louvar as origens do basquetebol americano, pondo tanta alma e verve neste último que todo o resto é compensado, não se imaginava quando Irving protagonizava os comerciais de refrigerante que algo tão sentimental e singelo sairia como esse saiu – e nem que o filme teria uma representação de movimentos de basquete tão boa quanto em Brancos Não Sabem Enterrar e Blue Chips – e de certa forma a vida imita a arte, uma vez que não tanto tempo após o filme ser lançado, Irving voltaria a bater bola em Nova York, passando a jogar pela franquia do Brooklyn Nets, resta saber se terá tanto sucesso quanto seu personagem teve no Jubileu do Rucker Park, só o tempo dirá.

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