Crítica | Titanic

Em 1997, James Cameron dava um passo adiante em sua carreira como cineasta, comandando um projeto grandioso, enorme como sua figura de estudo. Titanic é uma versão sobre o naufrágio histórico de um navio supostamente intransponível. O começo de seu drama foca nas explorações sub-aquáticas de uma equipe de exploradores, que mergulham no fundo do oceano atrás do navio. Nesse meio tempo, Rose (Gloria Stuart), uma carismática e simpática velhinha surge como uma das figuras responsáveis pelo reconhecimento do naufrágio

O filme tem cerca de três horas de duração, e é dedicado um  tempo curto a mostrar a expedição de Brock Lovett (Bill Paxton), um caçador de tesouros, que encontra um cofre dentro dos escombros. Ao ir a bordo da embarcação de reconhecimento, Rose começa a contar uma história de seu passado, quando seria interpretada pela musa – no auge de sua beleza – Kate Winslet. Uma moça de alta classe, que estava noiva de Cal Hockley (Billy Zane), um sujeito egoísta e inoportuno.

Na época, Rose Dawson era uma moça entediada e pressionada a ser a galinha dos ovos de ouro de sua família, já que estavam falidos e seu casamento com Hockley resolveria os problemas financeiros de todos. Se percebe de plano um senso crítico da parte de Cameron quanto ao conservadorismo, o dinheiro a qualquer custo e a mentalidade tacanha por parte de uma parcela da sociedade, não só dos anos 1920, mas de nossos tempos.

A conexão que a moça passa a ter com o artista pobretão Jack Dawson (Leonardo DiCaprio) é a prova cabal da tentativa dela de fugir do mundo em que vive. A alcunha de pobre garota rica é muitas vezes lembrada dentro do longa, mas o roteiro de Cameron demonstra chances reais dela se desvencilhar desse mundo, já que se mostra bastante diferente de seus pares. Jack aparece com vinte e dois minutos de exibição como um rapaz sonhador e que desbrava o mundo, viajando e vendendo sua arte pelos portos. A partida da Europa em retorno para América não era uma novidade para si, mas o embarque no suntuoso barco é uma chance de estar em lugar de alto estilo, mesmo que esteja na terceira classe.

Os caminhos dos dois personagens se cruzam após uma tentativa de suicídio, e esse ato também é simbólico. O Titanic parece mexer com a cabeça de todos que estão a bordo, uma vez que as sensações e sonhos se tornam grandiosos. Mesmo os exageros são de certa forma justificados.

Rose e Jack dão vazão a um amor proibido, e nos momentos de maior tensão e união, ambos tremem. A primeira sequência dessa é a bordo de um carro, no estacionamento do navio quando finalmente fazem sexo, e a outra é ao final, na despedida dos dois. O amor proibido e que tem vida curta segue repleto de emoções, e conversa diretamente com o infortúnio do naufrágio, pois ambas cenas ocorrem ao lado dos momentos chaves para o dito fim do Titanic, sendo a primeira imediatamente anterior ao choque com o iceberg e a segunda posterior ao total afundamento do navio.

O iceberg só aparece de fato com mais de noventa minutos passados, um pouco menos da metade da obra. A partir daí, a história de amor ainda preenche alguns dos momentos, mas a maior parte do conteúdo dramático se dedica a mostrar a luta dos futuros naufragados na tentativa de subir nos poucos botes disponíveis. A partir daí, uma luta de classes se estabelece, normalmente favorecendo os mais abastados, pondo fim a vida de quase todos os que cercavam Jack.

As provas de amor que Rose e Jack praticam entre si tem um caráter lúdico e irreal na maior parte das vezes. É como uma fábula dos séculos anteriores, com personagens arquetípicos, com a donzela rica em perigo, o lindo rapaz pobre e o ciumento sujeito abastado. Não se desenvolve muito além disso, fato que faz toda a história soar um pouco repetitiva, mas ainda assim há bastante universalidade na obra.

Depois de toda a tragédia, nos últimos do navio ainda em pé se mostram alguns momentos de esperança na raça humana, seja a dos músicos, tocando canções religiosas em suas cordas, para tentar suplicar pelas almas dos que perecerão, ou na abnegação do capitão Smith (Bernard Hill) e Thomas Andrew (Victor Garber), criador do transatlântico, que escolhem morrer lá, tendo o oceano como seu túmulo. Depois de dedicar um tempo debochando da burguesia, Cameron faz um juízo sobre os poucos membros da classe que apresentavam algum rastro de humanidade, deixando-os se redimirem.

Titanic além de ser um resgate à memória afetiva de uma época em que só se podia sonhar com os avanços humanos, é também produto de uma nova fase do cinema, um exemplar magnânimo do poderio que a era digital do cinema poderia fazer. O orçamento gigantesco é completamente justificado diante da perfeita reconstrução de época.

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