Cinema

[Crítica] TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva

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A humorista Tatá Werneck teve uma ascensão meteórica recente. Seus trabalhos mais antigos para o cinema incluem até interações com Fábio Porchat e Ian SBF – em Teste de Elenco – quando ainda assinava como Talita Werneck, momento esse em que fazia trabalhos menos humorísticos. Após os trabalhos na MTV e a ida a Rede Globo, seu lado dramático começou a despontar novamente, passando a ser atriz em novelas, onde outra face da artista era mostrada ao público menos acostumado com a carreira da moça. A tentativa de Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic é a de expor essas  duas característica do talento de Werneck, em TOC - Transtornada Obsessiva Compulsiva e em sua personagem, Kika K.

Kika é uma atriz, e a primeira sequencia de ação em que ela está que lembra demais o ambiente de Mad Max: Estrada da Fúria. A cena é a primeira manifestação das inseguranças da artista, que sempre se imagina substituída por Ingrid Guimarães (que interpreta a si mesma), repetindo portanto a parceria que já ocorreu em Loucas Para Casar. Logo após essas cenas, a personagem é mostrada como uma mulher bem sucedida, com uma entrada considerável de renda e trabalhos, mas ainda assim a moça é insatisfeita, além de ter uma limitação mental, de TOC (transtorno obsessivo compulsivo) com objetos listrados, não conseguindo pisar sobre superfícies as tivessem.

A maior parte das piadas contém um caráter de constrangimento, mostrando que os produtores claramente tem uma queda pelo humor que Ricky Gervais tipicamente faz. Kika é bem parecida em espírito com David Brent, da versão britânica de The Office, em especial pela tentativa de exibir uma face que claramente não é a sua. A insegurança galopante da personagem se manifesta através da depressão, fato que contrasta com a construção que sua assessora Carol (Vera Holtz) preparou para si, como autora de livros de auto ajuda, sem o consentimento da estrela, evidentemente.

Após uma série de acontecimentos, a protagonista é acometida por uma crise existencial severa, e vai atrás do tal ghost writer que escreveu o seu livro, e encontra o funcionário de livraria Vladimir (Daniel Furlan), um homem medíocre e ordinário, mas que a ensina a viver de maneira despreocupada e livre, ao menos quando ela está com ele. A melhor participação do longa certamente é a dele, conseguindo enfim trazer ao cinema as boas performances que o humorista costumava fazer nos tempos de MTV e nos programas da TV Quase, que publica no youtube, e tal acerto é surpreendente, visto suas ultimas incursões no cinema, em Noite da Virada e Copa de Elite, onde passou bastante vergonha.

Há uma parcela de inteligência considerável no roteiro, com tentativas muito criativas de quebra da quarta parede. O tratamento que o texto dá as doenças que Kika tem é respeitoso dentro da proposta apresentada. Não se cai no erro de fazer chacota com as anomalias mentais, ao menos não com a personagem enfocada e há um discurso pró mulher que até surpreende por sua eloquência, especialmente se comparado a tantas comédias brasileiras recentes.

Apesar de alguns problemas relativos a Werneck, que repete muitas gags cômicas que ficaram famosas com Fernandona e outras personagens suas - especialmente quando Kika é mostrada atuando - a exposição da mesma não chega a incomodar já que sua performance quando séria é até comedida em questão de histrionismo e surpreendentemente positiva em questões dramatúrgicas. O uso da trilha sonora é muito boa, principalmente quando toca Ouro de Tolo, de Raul Seixas, que é a síntese da crítica que TOC faz ao ambiente comumente fútil do showbusiness brasileiro, e sem cair no erro de mostrar um final adocicado, feliz ou super otimista, resultando então em um raro acerto dos humorísticos cinematográficos recentes, ao lado de O Roubo da Taça e outros.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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