Crítica | Todo o Dinheiro do Mundo

Mais do que qualquer polêmica a respeito da vida de Jean Paul Getty, Ridley Scott se viu no olho de um furacão completamente inesperado: as graves denúncias de assédio sexual e comportamento inadequados envolvendo figurões de Hollywood como Harvey Weinstein e o ator Kevin Spacey, que iria viver o excêntrico bilionário, tendo inclusive suas cenas já filmadas. O diretor e a equipe correram contra o tempo e gastaram enormes quantias de dinheiro para refilmar as cenas com o ator, substituindo pelo excelente e veterano Christopher Plummer (o que depois abriu espaço para outra polêmica, onde Mark Wahlberg havia recebido U$ 1,5 milhões para refazer interpretando o funcionário faz tudo de Getty, Fletcher Chase, enquanto sua colega Michelle Williams, sem saber disso, recebeu apenas US$ 80 por dia apenas para cobrir despesas).

Correndo contra o tempo e com a data do filme já estabelecida, Scott precisava demonstrar em uma situação ainda mais difícil que ainda é um grande cineasta, pois vem de uma sucessão de filmes com mais fracassos do que sucessos. Dentro deste contexto, Todo o Dinheiro do Mundo se situa bem no meio de ambos. Se não é algo inovador e cheio de energia como Alien: O Oitavo Passageiro, tampouco é um fracasso retumbante como Êxodo: Deuses e Reis, Prometeus ou Alien: Covenant.

O longa conta a história do sequestro do neto de Getty (Plummer), bilionário do ramo do petróleo e conhecido por sua fama de sovina e também pela exímia arte de escapar do imposto de renda das mais variadas formas, usando inclusive o hábito de comprar várias e raras peças de arte para realizar tal feito. Seu neto, John Paul Getty III (Charlie Plummer) andava tranquilamente pelas ruas da Itália quando é jogado em uma Kombi e vai parar em um cativeiro de sequestradores italianos rústicos do interior do país, sem saberem muito o que estava fazendo. A distância familiar entre o filho do magnata, John Paul Getty II (Andrew Buchan) e seu pai era enorme, causando em si várias sequelas psicológicas. Ambos se aproximam, mediados por sua esposa Abigail Harris (Michelle Williams) apenas por uma imensa necessidade financeira.

O filme não se importa em momento algum em vilanizar Getty como o velho rico sovina e excêntrico (onde o filme ganha e muito com a participação de Plummer), assim como os outros personagens também são praticamente unidimensionais e seguem um fluxo muito previsível de acontecimentos e decisões, característica comum nas produções recentes de Scott. Getty se recusa a pagar o pedido inicial dos sequestradores, de U$ 17 milhões, o que deixa os bandidos nervosos, enquanto as atrapalhadas investigações de Chase e da polícia italiana apontam para uma brincadeira do próprio Getty Jr. em conluio com as brigadas vermelhas, o que também se mostra falso.

Logo entramos em uma longa e cansativa jornada pelo crime organizado da Itália, que vende o jovem herdeiro na tentativa de angariar mais dinheiro, em um jogo de gato e rato que não levanta muitas emoções e não faz o espectador imaginar nada além do que está vendo na tela, mesmo a produção do longa sendo visualmente impecável, com a fotografia, cenários e figurinos muito mais convincentes que a história em si.

Ao tratar de um caso já conhecido de crime envolvendo celebridades, Scott poderia ter adotado outras fórmulas menos óbvias, mas ao que parece, sua criatividade realmente está em crise, e cada vez menos podemos esperar algo inovador do cineasta, pois o que sobra após assistir ao filme é justamente continuar pensando mais sobre a polêmica da troca de atores e a diferença de pagamento entre eles do que a história que acabamos de ver.

Texto de autoria de Fábio Z. Candioto.

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