Crítica | Torre das Donzelas

Documentário de Susanna Lira (Intolerancia.doc), a respeito do duro período da Ditadura Militar iniciado nos anos sessenta, Torre das Donzelas tenta resgatar e remontar as memórias de um grupo de mulheres que habitaram um presídio que tinha a mesma alcunha do filme, com a fala dessas pessoas quarenta anos depois delas terem sofrido tanto.

A reconstrução do “quarto” onde as antigas prisioneiras se instalavam e o reencontro das moças – agora já mulheres – com essas memórias varia entre a pura emoção de algumas e a sobriedade de outras. Notar o quanto a tortura e o agouro dos autoritários agiu na mente e na lembrança de cada uma das suas vitimas é pesado, mas ao mesmo tempo é reconfortante ao se perceber o transbordar de braveza e coragem que essas senhoras transpiram.

Há uma forte sensação claustrofóbica ao se apreciar o filme. Se a intenção da diretora era estabelecer o incomodo que as mulheres tiveram na época que estavam sofrendo com as “caixas de maldade”, o documental acerta em cheio. Nas entrevistas e nos olhares das depoentes se nota o quão humilhante e desgraçados eram os métodos dos torturadores, que tratavam elas como objetos ou como humanos inferiores, vitimas de estupro que são descritos com uma veracidade tremenda, elas falam abertamente sobre os métodos medievais a que eram submetidas e de uma maneira muito visceral e franca, sem qualquer receio ou vontade de não chocar o espectador. Elas falam em “curras”, e no desejo dos torturadores em provocar gozo nelas enquanto as mesmas sofrem (ou sofreram, já que o tempo dos discursos é no pretérito). Se não havia pudor dos que infligiam mal, não seria nas vitimas que isso ocorrerá, e nesse ponto o registro em vídeo beira a perfeição.

A empatia com as mulheres que aparecem em tela é estabelecida já no início, é preciso ser extremamente insensível para não se afeiçoar ou não se compadecer da situação que elas sofreram. Apesar de haver falas de famosas, a exemplo da ex-presidenta Dilma Rousseff, o que mais toca são as falas das anônimas, de pessoas honradas, que tiveram suas peles, corações e mentes feridas, com marcas que só não doem para a eternidade por conta da coragem das entrevistadas.

Os cenários onde acontecem as falas variam entre fundos pretos e reconstituições da tal torre, e em especial esse segundo faz criar uma atmosfera diferenciada, que remonta a memória das mulheres e que incrivelmente não as faz paralisar de medo, nem recria o pânico que já as tomou ao longo da repressão, e o antídoto para isso certamente é a fibra dessas pessoas e a sensação de comunidade. A resistência ocorre apesar da fragilidade das mulheres que foram prisioneiras, basicamente porque os grilhões que as atavam eram físicos, a parte emocional delas obviamente foi tocada, mas não o suficiente para deixa-las inertes aos bons sentimentos, de camaradagem tampouco foram desumanizadas. Todas elas são plenamente capazes de amar, de seguir a vida, de ainda manter uma luta política e suas ideologias.

Há algumas gorduras no  documentário, mas seu começo é tão certeiro e faz o publico mergulhar tão profundamente no drama e na dor dessas pessoas que é impossível não ser levado pela emoção e compaixão geral. Os 97 minutos parecem mais longos do que realmente são, não por gerar enfado, mas sim pelo nível de intimidade que cada uma das mulheres dedica as falas, é como se quem assiste conhecesse cada um daqueles testemunhos, e conhecesse também quem os declara. O cinema da diretora soa bastante maduro, em especial por saber equilibrar bem não só os momentos mais emocionantes de seu roteiro, mas também por harmonizar os sorrisos, confissões e claro intervenções suas como diretora, com uma sensibilidade ímpar, conseguindo equalizar a parte sentimental com a informativa muito bem.

Torre das Donzelas soa como um acalento a alma, como quando se passa unguento nas feridas e chagas de uma pessoa doente e que serve de inspiração e criador de esperanças, ainda mais em um período tão caótico e cheio de incertezas quanto o quadro político pós eleições, onde o governo eleito flerta (sendo bem eufemista…) com um regime como o iniciado em 1964, que marcou não só a história do país, como a vida de toda uma geração e de tantas de suas filhas, como as retratadas aqui.

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