Crítica | Trama Fantasma

O cinema de Paul Thomas Anderson é bem visto pela academia e pelo público cinéfilo desde muito tempo, e não é à toa. Boogie Nights: Prazer Sem Limites, MagnóliaO Mestre são filmes seminais e sensíveis, e mesmo produtos de qualidade mais discutível como Vício Inerente, tem coisas extremamente positivas em si. Em Trama Fantasma ele se junta novamente a Daniel Day-Lewis que já havia feito consigo Sangue Negro. Aqui, ele vive o costureiro Reynolds Woodcock, um homem recluso e metódico, que habita como um pária a Londres dos anos 1950.

A vontade de não aparecer contrasta com o glamour que as peças de Woodcock exalam, mas casam também com o perfil de inúmeros artistas que não conseguem lidar bem com a fama ou com a invasão de privacidade decorrente dela. Esse comentário é feito de maneira sutil e se vê muito mais nas expressões dos personagens periféricos e nas pequenas atitudes do protagonista do que nos diálogos previstos no roteiro. Em uma das suas experiências de isolamento, ele encontra Alma (Vicky Krieps), uma garçonete de beleza moderada, mas que para o artista, contém um potencial tremendo, vindo a transformá-la em sua musa e amante.

A fotografia não creditada ao próprio Anderson casa maravilhosamente com a direção de arte de Chris Peters e Adam Squires, que constrói uma Inglaterra antiga unindo credibilidade e o lúdico de uma maneira ímpar. Todo aquele universo de glamour e fantasia cria um outro mundo paralelo, em que a anestesia de seus habitantes prevalece e é repassada a qualquer pessoa que vive as sensações que cercam Woodcock. Dentro desse microcosmo, não há espaço para sentimentos comuns e usuais, ao contrário, toda expectativa é subvertida para um olhar niilista e insensível, replicando um pouco da alma do personagem principal. A personagem de Krieps chega a verbalizar seu incômodo de não saber quais os motivos de estar ao lado de Woodcock, já que a distância da humanidade de seu par a deixa insegura. Há uma preocupação genuína do texto em construir um personagem que une harmonicamente as condições de pessoa admirável e digna de ódio.

A solidão que Woodcock se obriga a viver passa por egoísmos e inseguranças que permeiam a vida humana, sendo essa um dos poucos momentos em que ele se mostra como uma pessoa comum. Um gênio não é livre dos defeitos que um homem ordinário tem, pelo contrário, sua figura endeusada reúne defeitos que pessoas que passam reais dificuldades conseguem driblar com mais facilidade, em especial as armadilhas de vaidade.

É incrível como Paul Thomas Anderson se autorreferencia, uma vez que Trama Fantasma guarda muitas semelhanças com O Mestre, usando seu drama como pretexto para desconstruir imagens de pessoas fortes e inspiradoras, sendo que em seu filme antigo era um figura religiosa e nessa versão é um artista de alma e espírito aflitos. Apesar de o filme de 2012 ser mais inspirado, esse é mais carregado de comentários metalinguísticos, em especial na crítica a quem produz e faz arte, fato que só engrandece a obra final.

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