[Crítica] Triplo X

Começando sua ação em uma região do Leste Europeu, misturando manobras radicais e heavy metal, Triplo X surfa no gênero dos filmes de espiões – lançado alguns meses após Identidade Bourne, de Doug Liman – o longa de Rob Cohen começa como inúmeros filmes de James Bond, com um agente de terno e gravata fracassando em uma missão envolvendo o vilão do filme, Yorgi (Marton Csokas).

A passo seguinte é o de apresentar a versão do super agente moderno, caindo de paraquedas, como em 007: A Serviço Secreto de Sua Majestade. Cohen retornaria a sua parceira começada com Velozes e Furiosos com Vin Diesel, que teria em Xander Cage uma versão tatuada, rebelde sem causa e mais tagarela e canastrona de Toretto, trocando o amor exclusivo por carros por manobras radicais, que eram transmitidas via internet, muito tempo antes da febre que se tornaria o paradigma do youtuber. O roteiro de Rich Wilkes é simples e sua proposta é banal e infantil, como a maioria das comédias onde trabalhou anteriormente, e consiste basicamente em renovar os alistados, usando o bad boy metido a anti-herói para cumprir uma missão suicida.

Xander passa por maus bocados, mas mesmo entre eles, consegue deixar claro seu caráter espirituoso e péssimo timing para piadas, em meio a cenas de ação genéricas, que servem para mostrar que ele é um homem honrado e preocupado com a vida das pessoas, em especial de desconhecidos, o que faz dele o oposto do que seria um candidato ideal. Misteriosamente ele atrai a atenção de Yorgi, e consegue enfim cumprir as ordens de seu mandatário o deformado Augustus Gibbon, vivido por Samuel L. Jackson, que faz questão de repetir todos os trejeitos de seus personagens canastrões, sendo diferenciado unicamente pela ferida que tem no rosto, soando genérico no restante.

Cage se aproxima do antagonista, seduzido por sua namorada Yelena (Asia Argento), que guarda uma verdade bastante intrigante. Enquanto prepara sua infiltração ele recebe o auxílio de Toby Lee Shavers (Michael Roof), que serve como análogo a personagem Q de 007. O modo de agir do agente X envolve subornos, chantagens e mais um conjunto de corrupções, que servem para esconder seu estreito senso de justiça, que passa a ficar mais intenso ao perceber o drama de Yelena.

O agente interpretado por Diesel é uma versão de Bond igualmente mulherenga, mas com muito menos escrúpulos, já que era esse um anti-herói, motivado por um código ético capaz de se corromper em pequenos delitos – uma vez que ele é um fora da lei no início – mas também capaz de rompantes moralistas que condenam o simples fato de um dos coadjuvantes fumarem, mostrando que a construção do personagem não envolve só palavras de ordem retiradas de letras de harcore e punk, mas também aparenta uma caretice típica dos adultos que o mesmo combate. O mais curioso é que o argumento faz questão de introduzir um sem número de personagens que aparentam ter alguma importância, mas que se mostram um completo desperdício de tela e cachê, uma vez que não tem qualquer ação que não envolva uma frase de efeito ou uma sequência de gírias datadas da década de noventa.

O paraíso para o grupo de vilões é uma mansão onde há espaço para jogar boliche (com obras de arte clássica) além de quartos suntuosos, onde há mulheres sensuais a espera de seus pares. A construção do cenário íntimo é risivel, com dezenas de velas armadas, capazes de causar um incêndio que consumiria o castelo em segundos, e mulheres dançando no mastro da luxuosa cama que aguarda a ação. Esta sequência é um bom resumo da artificialidade do filme. 

Incrivelmente Yorgi consegue ser o entusiasta de bandas metal, pretenso revolucionário com armas biológicas e perfeito vilão de filmes dos anos trinta, maniqueísta em todas as manifestações de sua alma. A tentativa de dar importância para seu conjunto de ideias esbarra nas péssimas coincidências e conveniências de roteiro, e tornam-se piores se somadas as cenas de ação na neve, com efeitos em CGI terríveis mesmo para os idos de 2002.

Apesar do início frenético e da trilha sonora repleta de sucessos roqueiros da época, Triplo X passa por sérios problemas de ritmo, soando lento demais, apesar da gravidade e da urgência  das situações mostradas, especialmente no que tange a questão das bombas e foguetes de destruição em massa. Mesmo o desfecho é bastante semelhante aos momentos finais de 007: Um Novo Dia Para Morrer, que também era lançado naquele mesmo ano, mostrando que o inconsciente coletivo dos produtores de filmes de espião estavam no mesmo deserto de ideias que gerou filmes de ação terríveis. Exceto pela musicalidade, não há personalidade ou identidade dentro do filme, somente um arremedo, tanto de clichês de action-movies, quanto de referências a principal personagem de Ian Fleming, em uma repaginação nada inspirada do mito.