Crítica | Trocando as Bolas

O ano era 1983. Egressos do mítico programa Saturday Night Live, Dan Aykroyd e Eddie Murphy viviam momentos interessantes em suas carreiras. Dan procurava se consolidar como grande comediante nos cinemas após o sucesso de Os Irmãos Cara-de-Pau e Eddie estreava apenas o seu segundo longa-metragem vindo de um estrondoso sucesso já no seu primeiro longa-metragem, o policial 48 Horas. Coube então a John Landis unir os dois nessa sensacional comédia.

Na trama, Louis Winthorpe III (Dan Aykroyd) é um janota executivo de sucesso que vive uma vida praticamente perfeita, enquanto o vigarista Billy Ray Valentine (Eddie Murphy) luta para poder aplicar pequenos golpes e seguir sua vida. Suas vidas se cruzam em um insólito evento que ocorre no clube onde Winthorpe é sócio. Testemunhas do evento, Randolph Duke e Mortimer Duke (respectivamente interpretados por Ralph Bellamy e Don Ameche), donos do banco de investimentos onde Louis trabalha, fazem uma aposta para saber qual o fator preponderante que determina o sucesso de uma pessoa e para isso, tratam de inverter as vidas dos protagonistas em plena época de Natal.

O que se sucede no filme é uma série de piadas brilhantemente encadeadas pelo roteiro escrito por Timothy Harris e Herschel Weingrod. Com clara inspiração no livro O Príncipe e o Plebeu, escrito em 1881 por Mark Twain, o texto de Harris e Weingrod, além de apresentar situações divertidíssimas, privilegia a verve cômica do elenco, principalmente a dos protagonistas. Uma sacada muito interessante é o uso de As Bodas de Fígaro, ópera-bufa composta por Mozart que satirizava costumes da nobreza, como trilha para a rotina de vida do janota Louis Winthorpe. Landis aqui também se mostra em grande forma, dirigindo de forma ágil e inspirada, além de permitir o improviso do elenco em vários momentos.  O único momento comprometedor do filme é uma piada de “black face” que ocorre no final, já quando a fita abraça uma vertente mais alucinada para que um golpe seja aplicado pelos protagonistas.

Trocando as Bolas é um dos raros casos de casting perfeito. Aykroyd e Murphy dão um verdadeiro show como os protagonistas. O primeiro interpreta um perfeito babaca que ao passo que vai apanhando de tudo e todos, vai se tornando alguém mais humano. Dan se equilibra bem demais na comédia e nos momentos dramáticos, quando Louis desiste de lutar para ter sua vida de volta. Já o segundo, atua com o brilhantismo que demonstrou ao longo dos anos 80. Murphy é uma metralhadora de piadas, intercalando momentos em que segue o roteiro com seu improviso característico. Há também espaço para alguns momentos de comédia física, em que ele mais uma vez se destacava. Jamie Lee Curtis, faz uma prostituta encantadora, alternando entre acidez e ternura, em uma interpretação que lhe rendeu uma indicação ao Globo de Ouro e fez com que vencesse o prêmio BAFTA de melhor atriz coadjuvante. Denholm Elliot é outro que também ganhou um BAFTA de melhor ator coadjuvante por sua interpretação de Coleman, o mordomo de Louis. A sobriedade da interpretação de Elliot cede espaço a um momento engraçadíssimo em que ele precisa personificar um padre irlandês bebum. Bellamy e Ameche, intérpretes dos irmãos Duke, também estão maravilhosos em suas atuações, principalmente Ameche. O ator atua de forma quase cartunesca o preconceituoso Mortimer Duke, o que provoca risada e raiva no espectador.

Clássico da década de 80, é um conto moral natalino que influenciou até mesmo o mercado financeiro, uma vez que a “Norma Eddie Murphy” foi criada para negócios na bolsa de valores. O regramento foi criado visando transparência nas transações e banindo o uso de informações governamentais sigilosas no mercado de commodities. Enfim, um grandíssimo exemplar de comédia que vale a pena ser visto e revisto.

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