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Crítica | Tudo Vai Ficar Bem

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Tudo Vai Ficar Bem - poster

O único motivo por sermos tão apegados as memórias é que, por mais que as pessoas tenham mudado, elas não mudam, e é dessa lógica que parte Tudo Vai Ficar Bem, novo filme do aclamado diretor Wim Wenders.

Na trama, James Franco interpreta Tomas Eldan, um escritor com bloqueio criativo que tem sua vida transtornada repentinamente após atropelar um garoto. Ao longo da década pela qual a situação, direta e indiretamente, se estende, Eldan enfrenta um relacionamento em crise, uma profunda depressão e uma mãe em luto. O elenco ainda é composto por Charlotte Gainsbourg, Marie-Josée Croze, Rachel McAdams e Peter Stormare.

A consolidação de Wim Wenders no cenário internacional se deu pela sua ousadia ao experimentar estilos e gêneros completamente diferentes um do outro. Anti-naturalista que é, alivia todo tipo de sentimentalismo hiperbólico, sempre construindo um tipo de romance em tela, ideia enfatizada pelo talento único no posicionamento das câmeras, captando uma poesia visual do cotidiano.

Aqui, porém, a estrutura não alcança um resultado satisfatório, mesmo com uma narrativa “em diálogo”, iludindo o interno do personagem com a realidade em si, e explicitando o conceito através do uso exagerado que faz da luz do sol, sendo essa uma passagem entre as ideias do “romance” na cabeça do protagonista e os acontecimentos em si. E são essas passagens que, ao passo que dão uma composição deslumbrante ao visual estético do filme, tiram parte de sua consistência, espaçando momentos gloriosos com cenas desnecessariamente longas que morrem em fades negros.

Porém, mesmo mantendo um tom pesado e melancólico, o filme acaba por se tornar uma sequência de reviravoltas condensadas, semelhantes a uma encenação teatral forçada. Falta fluidez para que a história se desenvolva sem cair em conflitos previsíveis. Conflitos esses que se resolvem de maneira exageradamente rápida e nada palatável.

Mesmo com uma metáfora alusiva implícita, o estudo e a reflexão sobre a passagem do tempo e das lutas diárias para conviver consigo mesmo se apresentam de forma rasa e simplista demais, conceituando alguns gatilhos para, de forma pretensiosa, alcançar a total cumplicidade do espectador, evitando todo e qualquer tipo de questionamento que não seja o apresentado.

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Texto de autoria de Matheus Mota.

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