Crítica | Tully

Diablo Cody é a escritora que surgiu em 2007 com Juno, uma comédia que enganou muita gente (e outras, nem tanto) e de cara descolou um Oscar, respeito da indústria de conteúdo e comparações precipitadas com o talento de Woody Allen (?!). Cody é uma farsa, e o mesmo talvez possa ser dito de Jason Reitman nessa altura do campeonato. O roteirista adora analisar o cotidiano da classe média americana, os prós e contras de gente normal, sem nunca sair da sua zona de conforto ou conseguir extrair algo verdadeiramente interessante fora do banal que Reitman e Cody tanto gostam de se alojar, fingindo que o investigam assim (“Você é chata, sua casa é chata, mas isso é incrível pra caramba!”, confessa a certa altura uma personagem, aqui.)

O problema é que tanto cineasta, quanto roteirista, não conseguem jogar brilho no mundo real que se debruçam sem pedir licença para contar histórias desde a comédia indie que deu tão certo nas suas carreiras, há mais de dez anos. Tully parece uma releitura contemporânea de algum roteiro ou sinopse perdida dum filme de John Cassavetes que o mesmo esnobou, e Reitman resgatou, assumindo a peleja de contar com personagens iguais você, e eu, para emblemar seu projeto de Cinema tão centrado na completa e nua informalidade das relações pessoais americanas – e que acabam sendo, em partes, ocidentais por excelência.

Na trama, Marlo (Charlize Theron) é o que a personagem de Ellen Page virou quando adulta. De meia-idade, a mulher e seu marido, tão apático quanto os próprios filmes de Reitman, já são pais de dois moleques teimosos e esperam o terceiro com o cansaço de quem sabe os desafios que irá enfrentar – de novo, até que num jantar entre amigos, onde nada de especial pode acontecer, surge a ideia de uma babá para ajudar com a futura tarefa. Tem-se o bebê, e a exaustão que um terceiro filho causa a matriarca (sem apoio do pai bobão e ausente, sendo esse seu quarto filho na verdade) é grande demais para Marlo suportar sem a ajuda de Tully.

Eis a moça novinha, o ingrediente que faltava a normalidade sufocante a uma quase desperate housewife, e que encara tudo como se fosse um playground caseiro, personificando o frescor que a mãe estressada tanto carecia numa rotina já bagunçada o suficiente. Nisso, ao invés de promover um choque entre gerações ou doces lições de companheirismo que ninguém aguenta mais, a empatia que surge pouco a pouco entre a veterana e a novata diverte e faz pensar numa revitalização bacana de Thelma e Louise, bem ritmada e com bom senso de sensibilidade que a trama com certeza precisava para decolar, e mesmo assim não decola.

Reitman trabalha seus bons personagens de forma quase documental, perseguindo-os com a câmera e apostando tudo em nos fazer ouvi-los em excesso para melhor assimilá-los, mesmo sendo personas completamente acessíveis a qualquer um de nós. Típico. Mesmo assim, Tully desdobra-se num filme agradável, em indiscutível, com conflitos reais sobre o preço da passagem do tempo no universo feminino (a cena da corrida na floresta), usando e abusando de uma Theron morna e em piloto automático. A atriz, contudo, está longe de ser uma farsa.

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