Crítica | A Última Chance

Protagonizado por Marco Pigossi, o drama A Última Chance de Paulo Thiago conta a trajetória do lutador Fábio Leão. Recém-saído da penitenciária, Leão informa que quer abandonar sua vida no tráfico, se retirando do ofício na boca de fumo em que trabalhava antes de perder a liberdade.

Logo, o destino apronta para Fábio, fazendo-o enxergar em um dia comum um aviso sobre aulas de Muay Thai, em uma academia, exatamente no dia em que efetuaria uma ação criminosa. Essas coincidências do roteiro já demonstram o quão equivocada é a construção textual  de Thiago e Teresa Frota. O que se assiste após isso são encontros e desencontros regados a frases repletas de clichês, imitando de certa forma o pior aspecto dos filmes de b de pancadaria.

Os entraves e discussões de Fábio com os personagens periféricos fazem pouco ou nenhum sentido. Os ânimos em uma discussão na boca de fumo se acirram sem qualquer motivo aparente, não há lógica na fala entre o pretenso lutador e os bandidos, bem como ocorre na academia. Personagens que antes eram antipáticos a ele agora são super solícitos e prontos a servirem o rapaz. A história lembra um folhetim inspirado em livros de auto-ajuda. Até mesmo nas cenas de lutas falta dinamismo por parte da direção, as coreografias não convencem, o trabalho de fotografia não consegue reproduzir as lutas com clareza, aliado ainda de uma trilha sonora que não combina em nada com as lutas existentes nos filmes do gênero que o inspiraram.

O volume de coincidências só aumenta. O fato de ser uma história baseada na realidade não justifica uma má construção de dramas. O romance com Luciana (Juliana Lohman), as dificuldades financeiras que magicamente aparecem na história, tudo soa extremamente forçado, inclusive na proximidade que a trama tem com Rocky: Um Lutador, especialmente na dualidade entre a criminalidade e o esporte.

Há problemas sérios de continuidade, em alguns momentos não parece que houve um trabalho de pós-produção. A jornada do campeão Leão lembram os piores momentos do quadro arquivo confidencial, no sentido de ser um greatest hits da vida real de alguém. Não há qualquer naturalidade nos fatos mostrados, tampouco há grafismo nas lutas. O acréscimo do personagem Aguinaldo Freitas (Jackson Antunes), candidato a vereador e mantenedor das despesas do protagonista é forçado, deixando óbvio desde o início que se tratava de um sujeito desonesto. Não há espaço para sutilezas ou nuances, tudo soa falso, bobo e artificial.

Pigossi parece viver uma versão piorada de Santana, protagonista de O Nome da Morte, outro filme que protagoniza, a diferença é que o filme de Henrique Goldman ao menos tem apelo comercial. A Última Chance parece uma propaganda moralista anti-drogas em formato de longa metragem. Os ressurgimentos financeiros de Fábio não são explicados, mesmo quando ele volta para o crime. Todas as vezes em que se citam as frases e escritos de Bruce Lee a sensação é de afronta, uma vez que os dizeres são normalmente citados de maneira aleatória, em contextos completamente pobres. Perto do final, há uma cena em que se mostram as visitas íntimas, e o que se vê são cortinas dividindo os locais onde os presos transam, em posições que lembram os filmes das Brasileirinhas ou Buttman, reforçando a ideia de que essa é uma  comédia involuntária.

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