Crítica | Últimas Conversas

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Invadir a privacidade alheia feito hospedeiro foi a sina de Eduardo Coutinho, compartilhada num mangue de estórias por nós; cúmplices. Muitos, hoje em dia, de vlogueiros a cientistas sociais, defendem que a privacidade deve, repito, Deve ser invadida (como vem sendo) para estreitar nossas laços e fazer das relações uma tela de cinema, exímia janela aberta que é (entre pessoas bem-intencionadas, detalhe). Mas caso o tal do privê seja assim, tão importante, tocando até nas vias do sagrado, Coutinho, nosso fotógrafo de almas, quebrou a quarta parede desde sempre, investigando até o fim e as facadas que recebeu o ser humano brasileiro (Cabra Marcado para Morrer), o que o move (Edifício Master) e o que alimenta (Um Dia na Vida, Canções e Peões, entre outros), virando famoso, ou celebridade anônima, por ser o menino xereta de cabelos brancos que sabe usar a curiosidade em prol de vasculhar as solitudes, mazelas e as putarias que causam ao Brasil o mérito delator de ter, entre seus melhores filmes, vários do cineasta assassinato no polimento de sua última lupa social: As Últimas Conversas d’O cara. Quem não queria narrar sua vida pra ele?

Eu queria, mas minha vida é chata, desinteressante, normal, e ao saber disso, o cara faria abrir minhas experiências com a fúria de uma câmera IMAX na minha cara. Nos ensinou que não existe normalidade quando a mesma é filtrada pela “lupa de Coutinho”, remetendo pela metáfora ao ditado popular que Todos somos loucos, se olhados mais de perto… É que o importante à ele não era respeitar, mas tornar público, no limiar das funções da arte a realidade de um povo, usando como objeto o Cinema. Essa era a função do artista, potencializada nas vias da encenação no extraordinário Jogo de Cena, peça-chave e obelisco do Cinema mundial dos primeiros anos do séc. XXI – aula impreterível do sábio numa ação de glorificar imagens, sons e a palavra bem vivida.

Nós não queremos que o filme acabe, simples. Se o que faz do homem comum um homem comum pode ser filmado, Coutinho tal Orson Welles grava em retrato e cinefilia a matéria-prima de um conjunto da obra que carrega, em cada exemplar, um testamento diferente. Não encaremos Últimas Conversas como obituário, dado que recolhe as visões de jovens brasileiros num terceiro mundo que desafia suas mentes globalizadas. Um genuíno ponto de partida, como todos os filmes d’O cara, bicho curioso que enquanto escrevo, não demora a perguntar pra São Pedro quem tem a culpa do aquecimento global aqui embaixo. A gente adorava as respostas do vovô. Os casos de outrora, eternizados por uma câmera eternizada por seu mestre. No dicionário de Coutinho, conclusão era reles verbete mudo. Sendo assim, ao arqueólogo do involuntário o caminho é a chegada.

Falar de Últimas Conversas é discutir Moscou e remeter a Teodorico, o Imperador do Sertão e Jogo de Cena, de novo. Porém, o último de Coutinho nos reserva um sentimento de perda e novidade exalantes. Novidade devido ao admirável mundo novo que todo adolescente traz, dentro de si, alguns olhando para o mestre como se estivessem diante de um monge, outros para uma relíquia ultrapassada tentando entender o presente. E perda, pois os créditos finais logo vão subir depois de 90 minutos e… fim. São as Últimas Conversas! Seus registros, tão autênticos, consumidos por uma licença poética e delírio do que se extrai do audiovisual e inerentes ao ser, e forma estética. Relatos crus, mas olhando bem, apenas em sua essência, posto que jamais são no trajar mais refinado que sempre os permeia (no caso, uma montagem que expande os sentidos e não resume nada!). Coutinho era fera ferida, mas masoquista, graças a Deus. Por tudo isso, daí vem a birra do artista com a ficção, cozinhada e açucarada demais, a ponto até de perder aquele tal do caráter virginal e cru de suas obras pueris, e pueris como só.

E quem não queria narrar sua vida a Coutinho?

Tarde demais.