Cinema

Crítica | Um Amor do Tamanho do Mundo

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Baseado nas memórias de Novalyne Price Ellis, o longa Um Amor do Tamanho do Mundo é o filme de estreia do diretor e produtor Dan Ireland, e conta um pouco dos bastidores da vida de uma lenda da literatura fantástica: o escritor Robert E. Howard, criador de Conan, O Bárbaro. Passada durante os anos 1930, no Texas, Renée Zellweger interpreta Price, na época uma professora que sonhava em viver da escrita e, nesse ínterim, conhece o autor dos contos e romances da Era Hiboriana.

A amizade  dos dois é muito bem explorada. O personagem vivido por Vincent D’Onofrio, chamado de Bob Howard pela mulher, é trazido por um amigo em comum dos dois e, aos poucos, eles vão se envolvendo romanticamente, tendo em comum obviamente o amor pelas letras e histórias. Robert, que já era um autor pulp com alguma fama, era um sujeito de gênio forte e o filme se restringe a basicamente mostrar o quanto ele é talentoso e difícil de lidar.

Toda a trama se baseia na atuação de D’Onofrio e Zellweger, além da construção de um possível romance entre os dois, que varia entre o platônico e a frustração de que essa relação não evolua a partir disso. Apesar dos dois estarem muito bem, a construção adocicada desse amor soa enfadonha, com um tom bem diferente dos momentos onde o escritor é acompanhado da solidão e de sua máquina de escrever. Os momentos onde ele entra em seu próprio mundo para se inspirar enquanto escreve as histórias do cimério tem uma carga dramática boa, mas o tempo é bem reduzido se comparado ao desenvolvimento sentimental da trama.

O filme faz questão de detalhar bem a relação de Bob com sua amada mãe. Há muita ternura e cuidado ali, de uma maneira que levanta até suspeitas de que algo maior ocorre além da simples relação parental. Por mais que a história não seja exatamente sutil ao mostrar o quanto Howard era inepto socialmente, o filme não abre muita possibilidade para o rumor maldoso de que ele teria um sentimento incestuoso pela mãe, até por conta da condição de tuberculose dele desde sua infância. O fato que realmente incomoda é a supressão da figura de seu pai, que estava vivo na época, era bem presente e perdeu em poucos dias filho e esposa. Embora dentro da estrutura dramática escolhida ele não faça tanta falta, certamente haveriam mais camadas de discussão no filme caso ele não tivesse sido cortado. Howard é basicamente o macho alfa, o único homem dentro das quase duas horas de filme.

Mesmo com toda essa aura de respeito, o filme não entrega tudo que poderia. Tem um final anti-clímax, tem como aspecto positivo apenas a dupla de protagonistas e, claro, os bastidores da inspiração para as historias do bárbaro. Ao menos a jornada de Howard foi aludida de maneira respeitosa, mesmo que o filme em si não seja brilhante em abordagem, contando com uma atuação única de D'Onofrio, que consegue apresentar bem as facetas complicadas do autor pulp.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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