Crítica | Um Dia Difícil

Uma ode à ironia das coisas – no caso, aquela que habita o cinema da superficialidades que diretores mais contemporâneos como Nicolas Winding Refn, e seu superestimado Drive, tanto levam a sério. Por isso que Um Dia Difícil é um filme pensado entendendo essa ironia como uma desculpa para trabalhar a ação não pela estética da mesma, ou truques rápidos de câmera, como todos esperamos de um filme do gênero. Mas pelo movimento puro, e inesperado das reviravoltas ao longo da trama, subvertendo as nossas expectativas enquanto seguimos horas surrealmente conturbadas de um detetive sul-coreano a partir do seu deparar com um cadáver, numa estrada qualquer, e na mais normal das noites.

A partir daí, tudo na própria história e nos contornos que o cineasta Seong-hun Kim confere a seu filme, um belo exemplar satírico e bastante espirituoso do seu gênero, e não há aqui qualquer objeção sobre isso, vem a ser impulsionado pelo acaso. Por pequenos plot twists divertidíssimos que o cinema americano dificilmente tem coragem de empregar em seus filmes, e quando o faz, desastres acontecem (Os Últimos Jedi) com um grande público acostumado sempre com o mesmo arroz e feijão, de cinquenta anos atrás. No decorrer da trama, o dia que já tinha ficado difícil para nosso detetive Go Geon-soo vai tornando-se insuportável, em um compêndio de referências claras e elementares aos escritos de Agatha Christie, e aos clássicos surrealistas de Luis Buñuel, numa narrativa cheia de armadilhas que tornam o filme uma verdadeira montanha-russa de desafios.

Alguém aparentemente, aliás, andou assistindo muito Paul Greengrass. Com algumas cenas que parecem ter sido tiradas de O Ultimato Bourne e Zona Verde, a ironia também acha lugar na conceitualização geral do longa. Assim sendo, mesmo em cenas de profunda dramaticidade, aposta-se numa moral bem mais irreverente, e divertida, o que funciona muito bem aqui, escapando da seriedade (brilhante, por sinal) que John-ho Bong (O Expresso do Amanhã) e Hong-jin Na (O Caçador) equalizam, por exemplo, com suas verves mais aventurescas de se abordar histórias de tiroteios, corre-corre e explosões imprevisíveis que nos hipnotizam, mas que não tiram nossa atenção do que importa. Dramaticidades levadas a sério de forma magistral, eu diria icônica, mas que não combinariam com essa visão de puro entretenimento bem-humorado e frenético que temos em Um Dia Difícil.

Um thriller que cerca os passos apressados do pobre detetive que só quer enterrar e superar a morte da sua mãe, mas as circunstâncias atiram-no pra bem longe disso, enquanto é complicado não esboçarmos um sorriso com as incredulidades que brotam pelo seu caminho cheio de causas e consequências imediatas, algo que dialoga fácil com o tempo que vivemos, e com os valores que vamos (re)aprendendo. Tal qual a vida o testasse num jogo de resistência, assim como também faz conosco tantas vezes, o quão forte um homem consegue ser em situações tão inacreditáveis, que beiram o lado involuntariamente cômico que tragédias e reviravoltas em efeito dominó podem ter, mesmo para quem não sabe ver o lado bom da vida, e nisso, esquece que, se nada é fácil, há de se ter um bom propósito justo para isso.

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