Crítica | Um Dia Para Viver

Não se enganem: Quando Hollywood quer ser original, ela é. Inventa novas regras, reinventa expectativas, acha novos talentos dentro e fora da indústria americana, enfim, ela se vira. Como bem falava o finado educador brasileiro Rubem Alves, ‘ostra feliz não produz pérola’. É preciso algum impulso para querer o novo em meio ao comodismo das fórmulas de sempre, mesmo num gênero tão carente de renovação como o da ação, cada vez mais dividida entre o fiscalizar dos seus elementos, como no caso dos filmes recentes do John Wick, e a plasticidade tecnológica que diretores como Zack Snyder e J.J. Abrams tanto se apoiam para explorar seus mundos de aventuras exageradas.

O negócio aqui, contudo, é pé no chão e ação física mesmo. Um Dia Para Viver jorra testosterona até no olho do gato, abusando de mil golpes entre machos, emboscadas violentas, reviravoltas inesperadas e fajutas e outros arquétipos clássicos de qualquer filme do Super Cine com Van Damme, ou Stallone. A diferença, aqui? Nenhuma, sendo a reciclagem que é, a não ser pelo mergulho frenético que o ex-coordenador de dublês, Brian Smrz, aqui bancando o cineasta, nos proporciona dentro da ação desmedida e um tanto bem coreografada (é Hollywood, não Coréia do Sul) no desenrolar minimamente dramático das loucas horas de Travis Conrad, um ex-assassino mercenário que, sendo finalmente capturado e “morto” em missão, é revivido por ter informações valiosas demais para ir embora com elas.

“Você é uma arma dos infernos”, diz o chefe da organização que o traz de volta dos mortos só para despachá-lo em seguida, sem saber que ele e seu exército de capangas iriam penar para exterminar o mais novo zumbi do mundo do crime. No seu pulso, brilha sob a pele a contagem regressiva para a droga parar de fazer efeito, e suas 24 horas de fuga e corre-corre entre contêineres, e prédios lotados de homens letais é o que vamos acompanhando. Só que Brian Smrz  não é Paul Greengrass, e na tentativa de “enxugar” a trama para deixá-la o mais simples possível e poder entrar de cabeça na ação brutal e sanguinolenta, também é enxugado parte do nosso interesse pelo dia mais longo da “vida” de Travis, num filme que significativamente quer dizer muito pouco, e no fim, apenas entreter.

Ethan Hawke, quando não está brigando com a esposa nos filmes de Richard Linklater é uma boa figura do gênero, e convence sendo o casca-grossa com sangue nos olhos, e que atira com uma mão só. É fácil, todavia, dizer que seu Travis Conrad é uma inspiração direta do John Wick de Keanu Reeves, mas há mais comparações plausíveis com o Travis Bickle de Robert de Niro, do clássico Taxi Driver, que ao matador de aluguel vingativo e apaixonado por cachorros. Ambos os Travis, cujo nome em comum não é uma coincidência, são homens absolutamente sem futuro, amargurados até o talo, intimamente ligados aos seus ambientes mas que ainda têm alguém, alguma pessoa no mundo para lutar e enxergar algum resquício de felicidade; um resto sequer de esperança.

Isso porque o Travis de Hawke tem um filho, e se é ele o que motiva o assassino a não aceitar sua morte até o fim das 24 horas que lhe restam, é também a presença do garoto o grande calcanhar de Aquiles desse Um Dia Para Viver. Esperamos então que Brian, dirigindo emoções reais e não apenas piruetas de dublês, não aposte tanto no drama familiar no seu próximo filme, já que o cara não tem a mínima ideia de como filmar uma lágrima, sendo perito nas cenas de lutas e tiroteios, resultando num filme desequilibrado e tão frenético que se perde entre suas intenções primárias, e o entretenimento que bastava por si só no começo, de repente fica chato (também por conta da montagem ruim), e logo queremos que as 24 horas dele acabem rápido. Mas não se enganem, mais uma vez: O verdadeiro John Wick ia chutar o traseiro desse Travis fácil, fácil.

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