[Crítica] Um Homem Chamado Ove

Filmes sobre senhores de idade avançada que se tornam vizinhos incômodos não são raridade. De tempos em tempos, surge um novo feel-good movie destinado a temática, geralmente abraçando os clichês da reclusão doméstica, da amargura social e da catarse causada pelo contato com um personagem mais jovem. Tendo em vista esse lugar comum, é com dignidade e inteligência que Um Homem Chamado Ove (En man som heter Ove, 2015) abraça os clichês sem tomá-los como objetivos, e ao fazê-lo, simultaneamente cria espaço para passar suas próprias particularidades.

Encontra-se Ove Lindahl (Rolf Lassgård) exatamente como se espera: apático e por muitas vezes rude, sempre desgostoso pelos hábitos desordeiros dos vizinhos e sentindo conforto só ao se comunicar com a lápide da falecida esposa, Sonja (Ida Engvoll). Ao ser desligado de suas funções na fábrica que trabalha a 4 décadas, decide também desligar-se permanentemente da vida. A partir desse ponto, o filme divide-se: na parte atual, na qual Ove tenta e falha sucessivamente o suicídio, de maneiras hilárias, e os flashbacks, que ocorrem quase sempre quando o personagem ameaça o sucesso de suas tentativas, explicando sua história e sua conexão (ou a falta dela) com as pessoas ao seu redor.

Obviamente, existe uma dicotomia entre as duas linhas temporais, valorizada pela fotografia de Göran Hallberg. A atualidade é bela, mas tem cores opacas, enquanto o passado é vibrante. É também interessante como o mundo se “fecha” sutilmente conforme a cronologia da obra avança, com planos amplos quando contando o período da infância, mostrando um mundo a se desbravar, que se estreitam progressivamente ao ponto de enquadrar o condomínio dos dias atuais como uma pequena e apertada maquete.

O roteiro é dedicado a compor cenas graciosas. Tudo que está lá serve para explicar melhor o protagonista ao expectador ou para passar a empatia necessária para fazer a história funcionar. No entanto, parece haver uma preocupação do diretor Hannes Holm em criar uma sequência de cenas agradáveis ao invés de uma narrativa funcional (e há uma grande diferença).

A maior prova disso é a falha do filme em estabelecer um antagonista convincente, necessitando de um clímax forçado, provido por um coadjuvante aleatório e exagerado. É nesse instante que, após vários minutos de acerto no tom, composto com graciosidade, acidez e até humor negro, se exagera, tentando compensar a falha da narrativa com um “satã ex-machina”. É triste notar que o momento ápice do trabalho possa causar constrangimento ao espectador.

O grande trunfo, que permite superar esse momento e qualquer outro defeito do filme, está em seu intérprete principal. Lassgård compõe um protagonista que é sempre carismático, mesmo quando mais intragável, e tem a habilidade de guia-lo por todo um espectro emocional sem esforço aparente. Em determinado momento, o protagonista, em 10 minutos de câmera, vai das gargalhadas à fúria e depois à depressão. Nada parece forçado e o magnetismo de Lassgård é constante.

Assim a história se desenrola no dia-a-dia de Ove, com os clichês e particularidades trabalhando em conjunto: ele é recluso, mas em razão de seu luto. É amargo com o mundo que não compreende, mas a razão desse desentendimento vem de comportamentos que nos instigam a questionar sua saúde mental (TOC e autismo são possibilidades constantes). A catarse vem em contato com a juventude, mas essa não toma a forma de um adolescente, e sim de Parvaneh (Bahar Pars), mulher iraniana prestes a ser mãe pela 3 vez.

Há uma pequena bandeira social aqui. Lindahl é grosso com todos, mas não é preconceituoso. Pode-se até dizer que é salvo pelas minorias. Os personagens que frustram seus suicídios cobrem mulheres, imigrantes, muçulmanos e LGBT (esse último, com um arco que termina mal resolvido e esquecido). A situação da Europa atual pode ser metaforizada nessas relações, mas essa não é a mensagem mais importante que se deve extrair.

Acima de tudo, o protagonista é um homem correto. Segue as regras e nunca age com malícia. Recebe também sua também sua boa parte incompreensão dos outros (e isso é grande parte do motivo pelo qual se apaixonou pela sua esposa). Fica então, um discreto mas relevante questionamento: o mundo que estende a mão aos diferentes do futuro, com suas minorias sociais e pluralidade de modos de vida, o faz de bom grado aos diferentes do passado, que viram seus valores e modo de vida se extinguirem? Há no mundo quem se lembre e acolha aqueles que herdamos de um passado mais rígido? Um Homem Chamado Ove responde: deveria haver.

Texto de autoria de Felipe Duarte.

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