Crítica | Um Mundo Perfeito

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Um Mundo Perfeito é talvez um dos primeiros filmes que marcou uma mudança na carreira de Clint Eastwood como diretor, mostrando um lado pessoal, até então desconhecido, ao humanizar um protagonista falho. E o filme veio com expectativa depois de Os Imperdoáveis, lançado um ano antes, e que deu o Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor a Clint.

Robert ‘Butch’ Haynes foge da prisão e começa a ser perseguido pelo policial federal Red Garnett. Durante a fuga, ele rapta Phillip ‘Buzz’ Perry, um garoto de sete anos, e acaba desenvolvendo uma forte relação com o menino.

O roteiro original de John Lee Hancock acerta ao seguir a estrutura de ação paralela que remonta aos primórdios da narrativa clássica do cinema. Ao focar a relação entre os dois protagonistas logo no começo da história, e como o vínculo entre ambos vai se fortalecendo, a narrativa estabelece uma contraposição curiosa com a implacável perseguição federal.

Ao apresentar um detento em fuga que rapta uma criança com pai ausente, a história passa a discutir o vínculo entre dois personagens que se completam: Butch não está só fugindo da cadeia, mas da própria vida de crime que ele mesmo escolheu; da mesma forma que Buzz aceita entrar em uma relação que faltava: a presença masculina. Como a história se passa em 1963, o roteiro também passa a discutir como aquela geração estava perdida, fugindo de si mesma, além de questionar seus próprios valores.

Ao também mostrar a perseguição federal liderado por Garnett, cria-se um paralelo interessante entre as duas situações. Através das ações de Butch e Buzz no meio das dificuldades enquanto tentam fugir o tempo todo, o roteiro de Hancock inverte o eixo moral, e o espectador passa a ter mais empatia por Butch, um ladrão e assassino, do que pelo policial federal que pretende colocá-lo de volta na prisão e fazer com que o garoto retorne salvo e bem para a sua mãe.

A força da direção de Clint Eastwood está em ter acertado na escolha de um bom roteiro, em dirigir os atores e em focar na narrativa visual do filme. Fora a sequencia da morte de Butch, não há um plano ou cena memorável que transpareça o seu trabalho como diretor do que no contexto geral.

A atuação de Kevin Costner é o grande destaque do elenco. O ator vinha de uma carreira consolidada desde Os Intocáveis (1987) e Dança com Lobos (1990), mas até então nunca tinha interpretado um protagonista com grande falha de caráter como Butch. A atuação é bem contida quando deve ser e extravasada quando o roteiro pede. T.J. Lowter consegue transmitir bem quando necessário as emoções de uma criança que se encanta pelo raptor. Clint, por sua vez, dá o tom ao policial durão Red Garnett.

A fotografia de Jack N. Green (diretor de fotografia de Imperdoáveis, Bird e outros filmes do Clint) é naturalista, porém ela se sobressai logo no começo do filme, assim como no final, quando Butch morre e a cena passa a ser poética. A edição de Joel Cox (também editor de Imperdoáveis e outros filmes do diretor) também só prevalesce neste ponto, ao longo do filme ela é linear, servindo como base para a narrativa.

Um Mundo Perfeito é daqueles filmes que talvez não figuram entre os melhores do seu tempo, mas a bonita história narrada ali através dos nuances mostra que é uma obra das mais interessantes dos anos 90.

Texto de autoria de Pablo Grilo.