Crítica | Um Pouco de Caos

um pouco de caos

Sobre a harmonia da natureza interferindo na confusão das relações humanas. Definição tão bela quanto sua estética, infundada pelo tratamento prematuro de sua simbologia. Na história, um jardim precisa ser construído, e um filme também, de preferência em torno desse tal “jardim do éden” pré-planejado na área mais verde, do palácio mais suntuoso de uma era tão nobre, bela, de visual à margem do que há de mais impecável, visual e comportamentalmente. Tudo vibra em sintonia com as cores, a naturalidade dos movimentos, do cenário. Nota-se que Um Pouco de Caos tem uma vontade, uma intenção, é nítido até ao espectador mais ingênuo. Mas querer não é poder, todavia. Através da luta pessoal, como são quase todos os conflitos do cinema atual, e do seu enorme desejo de provar seu talento que, da jardineira Sabine de Barra, encarnada por Kate Winslet, surge um arquipélago de intentos e aspectos tão nobres quanto a época retratada, nos arredores do Palácio de Versalhes, em pleno reinado de Luís XIV, cuja capa e peruca quem usa é o próprio Alan Rickman, o ambíguo professor Snape da série Harry Potter. Como cineasta, sua insegurança é envernizada por uma sensibilidade duvidável, sendo que, quando a história consegue respirar sem a mão pesada de Rickman, também nota-se que um pouco mais de caos na direção não seria nada mal.

A cinestesia é o sentido de percepção de movimento, do peso, da resistência e da posição de um corpo no espaço; é tudo percepção. Quando a persistente mulher chega em Versalhes e, por impulso criativo, retira um vaso no jardim do palácio e o recoloca em outro lugar para, com mãos de fada, entornar a simetria do jardim, o filme mostra ter uma força de representação forte, ainda que insegura, por nunca mostrar aquele universo por completo. É como se tudo fosse resumido e condensado em um jardim de proporções quase bíblicas, incapaz de alcançar a floresta de emoções e infinitos aspectos que Kubrick alcançou, por exemplo, em Barry Lyndon. Diferente deste, o filme de Alan Rickman é uma leveza e sutileza que impedem o filme de ganhar ritmos, ganhar clímax ou de nos surpreender, de qualquer forma que possa vir dos altos e baixos da vida da burguesia.

Em 1963, o mestre Visconti fez equalizar visões políticas em outro clássico, O Leopardo, ao narrar a decadência de uma “nobreza” com uma perspectiva tão parcial enquanto humana, sendo assim uma espiral de ambiguidades que jamais merecia ter seu exímio trabalho de câmera em preto e branco. Pode se dizer o mesmo de Um Pouco de Caos? Se tons de prata fossem substituídos pelos de verde, a graça do filme ainda seria intocada? Será que os vestidos, com cores cada vez mais quentes, teriam o mesmo impacto para realçar o alpinismo social que o filme, habilmente, também mostra?

Fato é que as flores de Versalhes jamais refletem a beleza de Caos, e sim o filme que tenta, a todo custo, refletir a naturalidade dessa beleza, em contraponto a bagunça de como é viver junto a aristocracia, aos desejos dos monarcas. Aos poucos percebemos que Simone de Barra precisa muito mais que endireitar vasos, e sim impedir que a inveja dos outros chegue até ela. Além disso, Rickman se apoia na naturalidade das coisas para nos privar de emoções mais graves, mais agudas e dignas de ser expressadas numa tela de Cinema. O filme evita seu caos, essas digressões que tudo apresenta, até mesmo a natureza, tal Malick e outros cineastas não deixam de apontar suas alterações em filmes como A Árvore da Vida ou o recente Vidas ao Vento, de Miyazaki. Hoje está frio, amanhã calor (especialmente se você está em São Paulo), mas na natureza das emoções é onde surfamos, e os filmes também, ou pelo menos os melhores.

Se fosse música seria Spiegel im Spiegel, sinfonia de 1978 escrita por Arvo Part, ouvida em filmes como Gravidade e Hoje eu Quero voltar Sozinho. Na primavera vive Um Pouco de Caos, uma despretensiosa e elegante metáfora, intuindo-se nessa estação a vivência que Rickman planta na história de superação, após 18 anos sem dirigir um filme. Na ânsia de realizar um novo Desejos Proibidos, obra-prima de 1953, o fôlego linear e a tal da elegância (exagerada) ao contar a história não conseguem acompanhar o brilhantismo dos figurinos, lindos, o luxo das locações, a fotografia que tenta englobar o visual… é como assistir a uma rainha tentando sambar. Com medo do vexame, optou-se pelo mais seguro. Num filme onde o visual rege o conto, e não o contrário, essa extrema prudência e cerimônia de Caos se justificam, mas deixando um gosto de “quero mais” nos lábios de quem se lembra o que é a tal da cinestesia. Um pouco frustante, na real.

E o que faz um jardineiro, afinal? Do que foge quem decora e harmoniza um microcosmo, o que procura? Um flash de como seria a harmonia da vida se tudo fosse tão simples de cuidar, cultivar e combinar, talvez? Uma questão de simetria, algo que um limpador de quintal não pensa, mas pode sentir no feitio do ofício. Caos traz à tona, afinal, o desejo de mudança habitante em todos nós, mas com uma precisão quase fria e matemática, compatível com a aridez do assexuado O Discurso do Rei.

Kate Winslet ilustra nos olhos e no vestido sujo de pétalas e terra seca o penar em criar um pedaço do paraíso sendo honesta o suficiente para atrair a inveja dos outros. Talvez nisso, no lado intertextual do filme, resida o caos que, como um lírio escondido no mato, quase não salta aos olhos de quem vê, senão a superfície linda e agradável. A perturbação que a natureza não traz a Um Pouco de Caos por ser tão sistemático, e a desordem que ela traz às relações por ainda sermos tão humanos: é no equilíbrio entre essas duas forças, a racional e a natural, que o filme pende mais à primeira.