Crítica | Uma História de Loucura

O filme Uma História de Loucura, de Robert Guédiguianabre como se estivesse dialogando com um perito matemático sobre uma incógnita difícil de resolver pra quem não é da área das ciências exatas. A sensação, neste caso, é a mesmíssima. A incomunicabilidade cinematográfica total sobre o drama de uma região é algo muito mais comum de se presenciar do que se pensa, e filmes recentes como o maravilhoso turco Era Uma Vez em Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan; o africano Timbuktu, de Abderrahmane Sissako; e obviamente, o famoso iraniano A Separação, de Asghar Farhadi, são infelizmente as bem-vindas exceções quando o assunto é a universalidade de uma problemática que não consegue ser de fácil percepção ao restante do mundo que não vivencia, não participa e sente dificuldades de traduzir algo puramente local.

A história é boa o bastante pra servir de base a um épico histórico, iniciada num passado centrado em um incidente jurídico grave na trama, e que dialoga com a própria condição dos armênios, vivendo ou sobrevivendo na Europa dos anos 1920. Um povo profundamente marcado pelo massacre a seus próprios, e pelas dificuldades que resistiu, muitas das quais ainda persistem em ocorrer contra a sua identidade. Apostando num drama pesado, e várias vezes cansativo e desinteressante, a bem da verdade, o filme, após o flashback inicial situado em Berlim, promove um avanço na linha temporal para mostrar de forma indireta, na França, os dramas oriundos de outrora que ressurgem para assolar, noutra geração agora, uma conturbada família de armênios tentando tocar a vida entre as agruras que nem todo seio familiar precisa aguentar.

Uma História de Loucura, cujo título brasileiro ou original não ajuda-nos a entender a fundo as camadas de uma encenação naturalista, sempre buscando a realidade a todo custo, e extraindo das atuações uma personalidade quase que inerente para com a dos atores armênios, parece falar e às vezes exclamar certas noções ou verdades sobre justiça ao povo mencionado de forma exclusivamente regional, como se os interesses do filme não fossem além dos do público nativo a que se debruça, e se refere. Incomoda, aqui, a falta de tentativas para universalizar tanto os dramas reais de uma sociedade espalhada pela Europa, e pelo mundo, quanto as questões pautadas no filme, sendo elas tão ligadas as memórias, aos valores tradicionais e aos próprios valores humanísticos de respeito social, cidadania e imparcialidade jurídica que a própria história transita. Típico filme egoísta ao restante do mundo, e que não tenta jamais familiarizar uma visão internacional aos acontecimentos de ontem e de hoje a um povo traumatizado, e lutador.

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