[Crítica] Uma Noite Alucinante II

uma-noite-alucinante-2-b

Lançado quatro anos após Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, a continuação também conduzida por Sam Raimi tem um aviso para a plateia de que as cenas mostradas a seguir talvez sejam ofensivas para alguns. Os primeiros minutos fazem uma introdução do que seria o Necromicon, chamado também de O Livro do Mortos, em uma tradução aproximada. O caráter deste Uma Noite Alucinante 2 já se mostra diferente na maneira de filmar uma vez que a fotografia, figurino e ambientação parecem muito mais clean do que a rusticidade do filme original, o que faz perguntar qual seria a real intenção de seu realizador.

Há muitas coincidências fatuais entre a história deste e do outro filme, a começar pelo protagonismo de Ash (Bruce Campbell), pela viagem que faz com sua amada Linda (dessa vez interpretada por Denise Bixler), até a ida a mesma cabana do outro capítulo, agora chamada de Knowby. Não há menção a desventura anterior, mas não fica exatamente claro se ocorreram ou não os fatos, uma vez que o primeiro contato de Ashley com as criatura maligna se dá em uma cena que parece misturar realidade com fantasia.

Há um cuidado em explicitar o que antes era um mistério. A tal gravação que acompanhava o livro agora ganha um narrador de nome de Raymond Knowby (John Peaks), que teria encontrado o tal Morturum Demonton em uma ruína antiga, chamada de Castelo de Candar. A trama se bifurca, entre os momentos da origem desse artefato e os da interação do casal na cabana. Tudo que envolve a reaparição de Linda após ser decapitada tem um uma abordagem assumidamente trash e jocosa, sendo esta a maior mudança na postura da abordagem de Raimi. Toda essa ideia serve muito bem ao desígnio de mostrar a confusão mental pela qual passa o herói, em um momento de extrema crise, existencial.

A divisão das intenções de Ashley se dão através de cenas hilárias, em que ele começa a lutar consigo mesmo, tentando resistir a dominação que foi imposta aos outros personagens e que finalmente chegou a si. A mão putrefata que lhe inflige dor e agonia faz com que se desperte toda a genial canastrice de Campbell, uma vez que seu personagem precisa demonstrar uma duplicidade espiritual clara.

O show de horrores ocorrido através do banho de sangue e sujeira com Ash é interrompido pela chegada de Annie (Sarah Berry) a herdeira da casa e filha do doutor, Jake (Dan Hicks), Bobby Joe (Kassie Wesley) e Ed (Richard Domeier), que iriam ao encontro do falecido e desalmado arqueólogo. Os eventos clássicos passam a se repetir, incluindo a cena de violência sexual. O personagem principal é tomado pela coisa, o que prova que nem mesmo ele está imune aos poderes do opositor, sensação maximizada pela entrada e saída dos transes que tem.

Toda a seriedade que habitava os primeiros momentos do filme é deixada de lado passada uma hora, durante a preparação para enfrentar as bestas incorporadas. Como em Evil Dead, este número dois também serve de inspiração para outros tantos produtos do sub gênero terror, que imitam tanto o uso de criaturas animatrônicas, quanto o uso indiscriminado de armas improvisadas como suplemento corporal, com serras elétricas dando lugar a membros efetivos, fato que seria mencionado no filme Planeta Terror de Robert Rodriguez décadas depois.

A condução do filme é interessante, por conseguir reunir toda a bagunça que é mistura de elementos nos instantes finais reunindo o pós apocalíptico ao estilo Mad Max com viagem no tempo a era do medievo, desafiando os limites narrativos que um filme de terror pode se permitir. Uma Noite Alucinante 2 perde um pouco em qualidade ao seu original, e é claramente um arremedo de ideias inspiradas no primeiro volume, mas é ainda é caro graças a entrega total de Cambell, que conquista o publico mesmo em suas limitações dramatúrgicas, fazendo de seu carisma a liga que mantém unidos todos os elementos dissonantes do confuso e jocoso argumento.