Cinema

Crítica | Uma Noite de Crime

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A escalada da violência nos Estados Unidos culminou em uma lei radical que, durante 12 horas a cada ano, legaliza os assassinatos para que a população possa externar suas frustrações através da violência física. Durante este período, polícia, médicos e bombeiros cessam as atividades, deixando a população sem nenhum suporte.

O interessante argumento de James DeMonaco, roteirista e diretor de Uma Noite de Crime, permanece na prateleira de histórias com potencial mal aproveitado. Ao fazer desta trama uma narrativa de suspense, a possível crítica a uma sociedade radical que abre mão de suas próprias leis como contenção da violência, transforma-se em mais uma história sem graça e sem nenhum susto.

Os 30 minutos iniciais apresentam a família Sandin se preparando para a noite em questão. James, o patriarca, é um vendedor de sistemas de segurança que comemora as boas vendas para o evento anual. A família vive em uma região abastada, formada por uma população que é favorável à sanção da violência e tratam-na como uma mudança importante na sociedade.

Nas doze horas referentes ao Expurgo, a família protegida em uma casa enclausurada vive seu cotidiano enquanto, na televisão, especialistas analisam o efeito da noite de violência e os reflexos positivos em relação às quedas de violência no país, explicando a necessidade animalesca interiorizada pelos humanos e a possibilidade de externá-la. Mais do que uma vazão a um sentimento agressivo, a noite funciona como uma limpeza da pobreza do país, já que somente os mais ricos são capazes de pagarem pela própria segurança.

A crítica social se dissipa quando o filho da família oferece asilo a um homem machucado pedindo ajuda. O que se segue é uma sucessão exagerada que destrói um possível bom argumento, quando surge um grupo de adolescentes ameaçando a família para que devolvam o homem para que possam purificar suas almas de acordo com a lei.

O expurgo é visto como uma absolvição quase divina. Sendo um ato oficial do governo, é direito dos cidadãos usufruírem a noite de liberdade. Fato que torna injustificável o uso de máscaras pelos jovens, se não como uma carga de efeito para plastificar ainda mais a violência  e produzir uma sensação aterrorizante.

Na tentativa de obrigar a família a devolver o fugitivo, a energia elétrica é desligada e observamos um grupo capaz de se perder na própria casa. Mesmo que uma casa possua diversos cômodos e ambientes, é inverossímil que seus quatro integrantes se percam de maneira tão estúpida e não se comuniquem para encontrar um ao outro.

Como a intimidação vinda de fora parece patética – adolescentes obrigando uma família, protegida por um caro sistema de segurança, a se render – o roteiro exagera na tensão dentro da casa ao fazer do homem abrigado uma possível ameaça. Como é necessária uma ação para desenvolver a história, o grupo de adolescentes adentra a residência destruindo o sistema de segurança com correntes e um carro potente. Uma solução esdrúxula.

A curta duração da história ao menos não se estende além do que deveria, mas se desenvolve em elementos tão absurdos que em nenhum momento parecem ameaçadores. A violência que no interior do filme é banalizada também não causa nenhum incômodo para o espectador. A noite de crimes é fria, gratuita e mal construída.

O baixo custo da produção e o sucesso de bilheteria garantiram uma sequência programada para o próximo ano. É possível prever que a história não apresentará nada de novo em relação a esta primeira produção que retira o único talento do argumento, a crítica contra a opressão invisível do sistema governamental, para entregar uma história de agressão e violência sem nenhum atrativo.

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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