Cinema

[Crítica] Um Momento Pode Mudar Tudo

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Um Momento Pode Mudar Tudo - Poster BR

A breve primeira cena de Um Momento Pode Mudar Tudo é suficiente para o público estabelecer a relação de Kate e Evan, casados há quase quinze anos: um idílio amoroso no chuveiro, demonstrando intimidade e harmonia, uma abertura que evita insinuações eróticas.

O momento de amor é base para o contraste do drama de Kate, diagnosticada com esclerose múltipla. Tentando negar a condição frágil, a ex-pianista evita enfermeiros ou qualquer profissional que a trate como um paciente delicado. Mesmo com um marido dedicado aos cuidados, o casal procura alguém que a ajude diariamente, e Bac, uma jovem impositiva e diferente das demais candidatas, é escolhida como a pessoa ideal para o cargo.

A história tem leve semelhança com o drama francês Intocáveis, filme que também enfoca uma amizade a partir da relação entre enfermeiro e paciente. Como nessa produção, a relação entre Kate e Bec se compõe entre a amizade e a maternalidade e o choque eventual de gerações divididas: uma vida de casal consolidada e bem-sucedida em contraposição à juventude e suas relações coloridas e a indecisão sobre o futuro.

O título brasileiro representa erroneamente e com certo exagero um fatalismo que não está presente na trama. A doença de Kate é o evento que modifica sua vida, não se tratando de um momento específico transformador. O avanço da doença altera seu dia a dia, a princípio devido à limitação física; em seguida, com o distanciamento de suas amigas e também pelo afastamento do marido, do qual ela descobre uma traição.

A relação de mãe e filha se estreita devido à dedicação e à convivência entre as personagens. Bec é a única a tratar a doente como uma pessoa normal. A presença da esclerose gera uma redoma além da limitação física, como se a incapacidade locomotiva causasse temor e preconceito por parte dos familiares, sendo a traição do marido o ápice da quebra harmônica da relação. Um peso que modifica a estrutura amorosa.

A obra baseada no romance de Michelle Widgen estabelece a amizade como tema central, sem deixar de expor a dificuldade da doença e explorar a frágil questão da eutanásia. Diante de sintomas que cada dia mais tornam o corpo insuficiente, a trama se pergunta se há justiça em prolongar a dor de um paciente ou em aceitar seu pedido para que morra em um momento adequado, enquanto a pessoa mantém a consciência a respeito de seus atos.

O carisma das personagens – em destaque para o talento de Hilary Swank, grande atriz de poucos papéis louváveis – dá sustentação a esse bonito drama sobre relações humanas em um tom suave mas sensível, sem exagero fatalista ou melodramático.

 

Thiago Augusto Corrêa

Apreciador de cinema, literatura, quadrinhos e música. Formado em Letras, escritor e metido a sabichão.
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