Cinema

Crítica | Unguarded

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Unguarded começa com uma palestra motivacional, onde o biografado Chris Herren narra sua luta contra drogas em meio a uma discussão também sobre o quanto era especial no desporto que era o basquete em categorias inferiores  ao profissionalismo. O filme de Jonathan Hock já se inicia falando das quatro overdoses e dos crimes graves cometidos por Herren, que de certa forma, narra sua historia no documentário.

O especial da ESPN, lançado em 2011, difere muito de outros documentários dramatizados da 30 for 30 ou SEC Storied, por claramente ser mais panfletário e menos preocupado em equilibrar os aspectos pessoais do seu objeto de estudo em comparação com os feitos esportivos. Aqui, o que ele conseguiu no basquete colegial e universitário é claramente menos importante que a trajetória dele como palestrante motivacional.

As partes que mostram ele agindo por Freno State, a universidade da Califórnia, são eletrizantes, em especial quando contam com a narração de seu irmão, Mike Herren e de seu antigo técnico, Jerry Tarkanian. Ele voava em quadra, era capaz de chutes de três muito precisos, assim como infiltrava bem e era capaz de enterrar, era um sujeito caucasiano de muita disposição e dedicação em quadra, vibrante e com muito potencial.

Em 2011 as palestras motivacionais não tinham ainda caído em desgraça, nem tinham sido tão exploradas a ponto de sofrer uma grande rejeição de parte do publico como hoje são os Coachs. Assistir Unguarded atualmente faz com que toda a trama pareça desimportante e forçada, mas o que se vê  tanto no discurso atual de Chris quanto em gravações antigas é uma verdadeira entrega de corpo e alma por parte dele, por Tarkanian e por quem se importa ou se importava com ele é um diferencial nessa trajetória caucada na auto ajuda, mas ainda assim, se comparado a filmes semelhantes, esse perde um bocado, em ritmo e dinâmica, embora ganhe importância ao mostrar as provocações de adversários, citando os vícios que ele teve como ofensa.

A franqueza com a qual ele fala sobre seus antigos vícios assusta um pouco, há nele um tipo de resolução que não se assiste por exemplo em figuras comuns aficionado brasileiro por esportes, o exemplo de Walter Casagrande no livro Casagrande e Seus Demônios também é confessional, mas de uma maneira bem diferente desta de Chris Herren. Mesmo que haja um tom quase pastoral no discurso de Herren há muita visceralidade e veracidade, as partes em que ele descreve bad trips, pós saída do Denver Nuggets e Boston Celtics são agressivas, abordam a vontade de morrer, de não existir e se fala disso tudo com uma franqueza invejável. Chris é um personagem único, é de carne e osso, falho, humano e carismático.

Unguarded é o resultado do trabalho de Herren, nas palestras e pregações que faz, um modo de falar a uma platéia mais universal sobre seus problemas e como é possível supera-los. Não acrescenta muito do ponto de vista jornalístico e cinematográfico, mas trata de humanizar quem ele estuda, e mostra que o meio esportivo pode ser cruel e nem um pouco preocupado com a integridade emocional de um atleta, uma vez que fora sua família, quase ninguém depõe a favor do biografado, e não há qualquer remorso nisso por parte desses.

 

 

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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