Cinema

[Crítica] Velozes e Furiosos (1955)

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Usando a velocidade sobre o asfalto como representatividade moral para a urgência em relação a fuga, Velozes e Furiosos é mostrado ao público em 1955, já pelo que seria o rei dos filmes de baixo orçamento, Roger Corman. A direção, a cargo de Edward Sampson junto ao astro da película John Ireland, mostra o foragido da lei Frank Webster, um assassino que conseguiu escapar da prisão e que já habitava os assuntos dos cidadãos comuns que trabalham à beira das estradas.

A primeira personagem retratada em tela é a bela Dorothy Malone, que interpreta Connie Adair, uma moça de compleições harmoniosas, dona de um Jaguar igualmente elegante, rápido como o vento. Ao parar em um restaurante e conversar com um caminhoneiro – o típico habitante seguro das estradas – ela é atacada pelo fugitivo Webster (Ireland), que a toma como refém para tentar passar pela fronteira com o México e então cumprir seu destino.

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A violência furiosa ganha contornos dramáticos, seja com a frieza sociopata de Webster, sem qualquer receio de fingir ter outra identidade, impingindo violência extrema em quem o contraria. O acréscimo da aceleração faz do sacripanta uma figura ainda mais perigosa, conferindo-lhe poderes semelhantes ao de um semi-deus que habita um mundo tomado por inaptos, incluindo aí até o braço da lei, a polícia.

A noite torna a fotografia de orçamento paupérrimo em um breu quase absoluto, atrapalhando qualquer visualização do forçado casal. A análise visual turva serve também de paralelo à incerteza de caráter do fora da lei, que, mesmo após todos os atos de brutalidade que demonstra, não agride a docilidade de Connie, nem a força a nada; mesmo ao manietá-la, o homem ainda guarda um pouco de singeleza. As cenas que remeteriam à tentativa de estupro velada na verdade apresentam uma forte carência do homem, que. diante da primeira recusa, recolhe seu ímpeto sexual, apenas permanecendo imóvel, para com o calor de seu corpo aplacar o frio que ela poderia sentir.

Sob a alcunha de Bill Meyers, usada desde sua primeira aparição, Webster resolve se inscrever em uma corrida, sendo este o álibi perfeito para ultrapassar a fronteira do país sem ser notado como um desertor. É na competição em que o casal começa finalmente a agir de modo amistoso entre si, unidos pelo amor a agilidade, desenhando uma unidade ainda no período de classificações e testes.

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Em comum com a franquia tencionada pelo roteirista Gary Scott Thompson, há a irresistibilidade pelo perigo, associando a contravenção à honra, não denegrindo o anti-heroísmo para fortalecer o comportamento apolíneo puramente. O romance improvável de Connie e Frank se assemelha ao que é visto em muitos contos e novelas românticas, traduzindo o shakespeariano Romeu e Julieta para a segunda metade do século XX.

De certa forma, Bill Meyers não é só um nome falso, mas também uma oportunidade para Frank recomeçar, já confessado à sua amada e livre das acusações de malfeitoria. No entanto, Webster sabe que não há como fugir do braço forte da lei, tampouco pode provar sua inocência de modo convincente às autoridades. É a partir daí que ele deseja a solidão da fuga ao México, refutando o único aspecto positivo de sua existência desde sua prisão. O desfecho segue a tônica de seus semelhantes, abarcando uma redenção típica das fitas mais caras dos anos 1950. Uma obra que possivelmente passaria despercebida aos olhos dos cinéfilos, não fosse pelo remake de 2001.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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