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Crítica | A Verdadeira História de Hermes e Renato

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A Verdadeira História de Hermes e Renato

Gravado em 2009, o filme começa após locuções pequenas de cada um dos cinco membros do grupo que viria a ser chamado de Hermes e Renato. Após as falas, Fausto Fanti inicia sua narração, contando sobre seu antigo cunhado, Sandro, que possuía uma câmera VHS e gravava os meninos, em filmagens toscas, no início dos anos noventa. Desse modo tímido, começariam as primeiras aventuras em fita, sem roteiros elaborados, somente com pautas bobas e pueris, que Fausto e Adriano Pereira (Joselito) começariam a gravar, junto com alguns outros parentes de Fanti, todos crianças ainda, pondo para fora a sua criatividade.

Em Petrópolis, os futuros integrantes viriam a se encontrar e a brincar juntos. A partir de 1992, eles começam a registrar em cassetes as suas ideias esdrúxulas. De um modo embrionário, os meninos se reuniam para discutir alguns conceitos, gravando de modo contínuo, sem guião, somente "apertando o pause", como dito por Sandro. Em 1994, o namoro com a irmã de Fausto terminou, e os moços ficaram perdidos, sem o seu mentor, mas prosseguiram gravando sátiras de clipes de bandas. O curioso é que todos os momentos são ricos em vídeos das épocas citadas, pontuados de modo peculiar e informativo.

Em 1996 começou uma renovação na equipe, com a adição de Felipe Torres. Foi nesta época que surgiu o programa de auditório Claudio Ricardo, que satirizava os seus pares, como o Show de Calouros do Silvio Santos. Dali também viria o personagem Joselito, vivido por Adriano, que seria uma variação de uma figura real, um ex-cunhado de Fausto que era bastante sem noção, fazendo brincadeiras violentas com pessoas inadequadas. Esse caldeirão de influências contribui muito no humor deles, e até os ajudou a começar a se reunir na escola, onde eles encontram Marco Antônio Alves, cujas semelhanças eram enormes, pelo deboche e pela vontade de expor as ideias para o mundo.

A música foi um divisor de águas. Ainda aprendendo a tocar seus instrumentos, eles passaram a gravar versões de músicas famosas. Nesse tempo eles conheceram Bruno Sutter, conhecido também como Chapolim, amigo de colégio de Marco, que também era músico. Ali estava o embrião do que seria Massacration e Coração Melão.

Em 1998 a maturidade enfim chegaria, com os humoristas passando a escrever roteiros para as suas esquetes. Unindo esse ímpeto e um bocado de influência de pornochanchada, com textos repletos de palavrões e canastrices. O primeiro vídeo finalmente reuniria os personagens Hermes e Renato, com Lágrimas de um Corno. Junto a outras pequenas sátiras, enviaram uma fita, que viralizaram dentro da MTV. O contato do presidente André Mantovani foi quase imediato, graças a uma jogada inteligente de Fausto. A dupla que protagonizaria o nome do grupo viajaria a São Paulo, para conversar com a diretoria, utilizando os termos toscos e torpes, para gravar pequenas vinhetas, para passar na programação do canal.

Com o tempo, a emissora mandaria sua equipe de produção ir gravar com eles, em Petrópolis. A partir dali o amadorismo teria de ser trocado por algo mais elaborado. A aceitação do público foi praticamente imediato. Apesar de toda a tosquice trash deles, havia um certo apuro dos moços, tosco, mas demasiado esforçado, segundo os próprios profissionais da MTV. O período deles no ar aumentaria demais, de um para quinze minutos. Os cinco integrantes se mudaram para uma casa na Lapa, em São Paulo, num apartamento minúsculo, em condições precárias, graças a um descuido de um dos produtores. Como moleques, os comediantes destruíam tudo dentro do apartamento, avacalhando tudo, fazendo fogueiras, guerras de talco, matando periquitos de estimação. Os perrengues serviram para unir o grupo em prol do objetivo em comum, de seguir nessa carreira artística.

Em 2001 eles se mudaram de vez para São Paulo, com o acréscimo de um programa de trinta minutos, sempre com esse viés canalha e tosco, de ver o mundo e de fazer comédia. O documentário contempla alguns dos personagens mais famosos do grupo, dentre eles, o Gil Brother, que deixava aos poucos de ser um simples personagem para tornar-se quase como um sexto membro da equipe, a atenção da câmera dispensada a ele obviamente era mais curta, possivelmente graças ao processo que Jaime Gil da Costa movia contra eles.

Os assuntos polêmicos eram subalternos no documentário, que preferia focar na inventividade do quinteto e nas propostas de trabalho em multi-plataformas, e claro, visavam tornar o grupo ainda mais popular. Destacando a trajetória do Unidos do Caralho a Quatro, enquanto zueira de escolas de samba, até chegar às ideias que calhariam no Massacration. Os momentos históricos do grupo dentro da MTV são examinados de modo rápido, mas ainda assim detalhadíssimos, como no período em que dublavam o Tela Class, cujo esmero era enorme e a repercussão era pequena em comparação com o esforço.

Os setenta e um minutos não contemplam as novelas, Sinhá Boça e O Proxeneta, tampouco falam dos momentos espinhosos, como a saída da MTV e entrada na Record, que aconteceria logo depois da feitoria do filme. O tom do discurso é emocionado, como uma biografia sentimental, que louva a amizade e o árduo trabalho que garantiu a eles uma trajetória que, guardadas as devidas proporções, foi muito exitosa e repleta de talento, influenciando a geração de espectadores que viria, sem descuidar de seus próprios gostos e do que eles achavam por bem publicar. A fala de Felipe Torres é emblemática, de que o desejo dele seria envelhecer fazendo o que gosta, como Chico Anysio, claro, com os seus camaradas. Ademais o pouco aprofundamento dentro da programação de H&R, a fita serve perfeitamente como memória afetiva, não só do grupo, mas também como recordatório e biografia de Fausto Fanti.

Filipe Pereira

Filipe Augusto Pereira é Jornalista, Escritor, quer salvar o mundo, desde que não demore muito e é apaixonado por Cinema, Literatura, Mulheres Rock and Roll e Psicanalise, não necessariamente nessa ordem.
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