[Crítica] A Vida Extra-Ordinária de Tarso de Castro

O filme de Leo Garcia e Zeca Brito começa com a música Detalhes, de Roberto Carlos. É nesse intimismo que o documentário A Vida extra-ordinária de Tarso de Castro se desenvolve, contendo em si entrevistas de amigos do jornalista, que em suma, consideram-no um divisor de águas em matéria de Jornalismo.

A primeira cena abordando o sujeito é uma brincadeira de Marcelo Tas e seu personagem Ernesto Varela, falando com o próprio biografado, para logo depois entrar um clipe musical repleto de imagens de pessoas influentes da época dourada do biografado, ambientada pelo som de Meu Caro Amigo, de Chico Buarque. Já no início, o filme procura tocar em assuntos espinhosos, como a questão envolvendo seu apagar da história d’O Pasquim, sendo que todo o formato e concepção da publicação teriam passado por seu crivo e criatividade.

Ao mesmo tempo em que se fala dessa polêmica, também se traça um perfil de um sujeito boêmio e muito querido por todos, em especial por ser generoso com os amigos, sempre procurando saber do que ocorria com os seus, vez por outra entregando o que não tinha em prol de seus companheiros. Além disso, era um sujeito curioso, distinto no ofício de jornalista, uma vez que se informava tanto nas vias culturais tradicionais quanto nas esquinas e becos sujos das cidades do Brasil. Sua identidade de homem da noite se misturava com seu trabalho diurno, de noticiador e formador de opinião. Sua principal característica certamente tem a ver com a sedução que propunha a todos.

As entrevistas que Brito e Garcia registram tem um cunho de informalidade curioso, normalmente em bares, com dois ou mais amigos conversando sobre o comportamento do sujeito. Mesmo mais velhos, os amigos do biografado falam tomando sua cerveja ou comendo. Nas entrevistas individuais, as pessoas falam com o telefone no ouvido, remetendo ao hábito de Castro em utilizar o telefone o tempo inteiro. Mesmo que tal situação por vezes canse os olhos do espectador, as histórias mais engraçadas ocorrem nessas situações, em especial as revelações sobre seu espírito bufão e brincalhão.

José Trajano, Jaguar, Paulo César Pereio, Caetano Veloso e tantos outros falam dos amores e ódios do sujeito, sempre de maneira muito carinhosa, mesmo quando tratam de assuntos espinhosos, como a briga do jornalista com Millôr Fernandes, fato que ajudou a ter sua memória dentro d’O Pasquim apagada. No entanto, a sensação mais amplamente explorada a respeito da identidade de Castro certamente são as paixões pelo jornalismo, bebida e mulheres, não necessariamente nessa ordem.

Aos seus camaradas, resta a crença de que Castro hoje seria um sujeito de resistência a esse jornalismo moroso, burocrático e conservador que impera na grande imprensa, como são a maioria de seus amigos até os dias de hoje. O trabalho de pesquisa dos diretores é recompensado em um filme que foge do didatismo, ao mesmo tempo em que é absolutamente cheio de informações, resultando também em um produto com identidade e carisma, reverenciando a memória de Tarso de Castro inclusive na forma de documentar sua jornada.

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