[Crítica] A Vida Privada dos Hipópotamos

A Vida Privada Dos Hipopotamos 1

Através de uma proposta pouco usual para um documentário, Mariana Bühler e Matias Mariani dirigem a sua versão para a biografia do prisioneiro norte-americano Christopher Kirk em terras brasileiras, através de uma louca história de amor. Kirk estava recluso e somente aceitou a proposta para “posar” em A Vida Privada dos Hipopótamos após os diretores aceitarem sua condição, a de contar, ele mesmo, a história, emprestando arquivos pessoais de vídeo para incrementar a versão final.

Kirk era um ótimo contador de história, e do seu modo ele poetiza a própria jornada que protagonizou. A origem do nome do longa sugere um dos seus muitos causos sobre os animais marítimos que Pablo Escobar cuidava, e que teriam sido o único legado que sobrou após a morte do empresário da droga. Os tais hipopótamos só não eram mais curiosos que a história da tal colombiana meio asiática que capturou sua atenção. A moça, chamada V., conheceu Kirk pela internet, no início do advento dos chats de conversas particulares, e sua rotina seria tão irreal que justificaria toda a comparação do entrevistado ao boneco de madeira Pinóquio.

A Vida Privada Dos Hipopotamos 3

Há um cuidado genuíno por parte dos cineastas em não referenciar tão diretamente o que o levou a ser indiciado pela lei. Outro aspecto interessante, e que somente foi acrescido após a pós-produção, foi o acesso ao HD de Christopher, investigando sem restrições a origem das ideias por trás do objeto de análise. Não há pudores da parte do prisioneiro em detalhar o seu processo de paixão e rendição, tampouco vergonha em declarar como era usado, apelando a um coitadismo resignado, que não usa de todos os adjetivos para se declarar vítima, mas que ainda assim se põe em constrangedoras situações.

Os amigos de Christopher oferecem um bom parecer sobre todos os relatos. Chamado de “Goose”, revela-se uma intimidade bastante diferente das facetas vistas nos inúmeros documentários lançados anualmente pela indústria. A sucessão de fatos descritos permitem uma interpretação do sentido da vida, como as opções de enganação que o homem escolhe, seja pelo comércio do mercado de trabalho, que suga a vida dos seres até sua aposentadoria, ou pelas curvas de uma mulher fatal, que entorpecem a mente, coração e um conjunto de sensações.

O contato com Chris é interrompido, e a edição do filme compreende a apropriação de vídeos filmados pelo próprio em um audacioso ato de fuga. Buehler e Mariani trazem à luz uma persona engraçada e fajuta, rica em cada detalhe de sua intimidade e intrigante e carismática presença, tão magnética que é capaz de reunir toda atenção possível em volta de si, fazendo valer cada esforço executado na produção do diferenciado documentário.