Crítica | Vingança

Vingança é um filme de Coralie Fargeat que remonta uma história de revanchismo, em contraponto ao machismo comum ao mundo moderno. A primeira personagem estabelecida na trama é Jennifer (Matilda Lutz) – ou Jen – amante de um sujeito casado chamado Richard (Kevin Janssens), que vai para uma casa no meio do nada, dar vazão  a  uma relação de sedução e libido contida. Depois de uma noite de prazer, ela acorda e se assusta com a chegada de dois outros homens, Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bochède), ambos armados, e que a partir daí, ficarão na casa com a protagonista. No início, ela se assusta um pouco, mas ao chegar a noite ela se desinibe completamente, até dançando com os outros dois.

O início da história se dedica basicamente a explorar o culto ao corpo de Jen, que se exibe para a câmera e para os personagens a todo momento, mas não demora para a real trama se apresentar, uma situação macabra, e que se desenvolve aos poucos, depois que o roteiro revela uma boa parte de pecados absurdos cometidos pelos três homens.

Como era bem de se esperar, ao se deparar com a sinopse assustadora do filme, ocorrem aqui violências e crimes hediondos, e não se faz qualquer espetacularização do estupro, ao contrário, quando este ocorre os olhos do espectador estão fora do quadro, apesar de mostrar que dependendo dos facínoras que cometem tal ato,  isso seria sim mostrado e bastante explorado, seja pelo violentador covarde, ou pelo voyeur que somente observa.

O filme apesar de ter uma estética e abordagem simples, possui momentos de uma qualidade ímpar na questão de explorar minimalismos, em especial quando mostra detalhes em figuras menores, como com uma formiga, que habita a areia embaixo do corpo de Jen e que sofre como uma espécie de chuva de sangue, na verdade, são as gotas da mulher violada, que para um animal tão pequeno, parecem um evento digno de um dilúvio. O uso do slow motion nesse ponto faz um enorme sentido, até porque claramente a velocidade para o inseto faria outro efeito, e é uma boa exemplificação de como a ação de bichos maiores interfere diretamente no cotidiano dos melhores.

Em determinado momento do filme, Richard diz que o fato de Jennifer ser tão bonita a faz irresistível para os olhares dos outros homens, isso logo depois dela ter sofrido uma violência atroz, tal argumento falacioso torna até o desejo de quem assiste ao filme pelas curvas da moça em algo culposo, especialmente por ser este pensamento o início de um outro problema extremamente machista, que envolve a culpabilização da vítima quando acontece qualquer crime de assédio ou de vulnerabilidade da mulher em relação ao sexo forçado. O roteiro mostra isso sem precisar panfletar ou mostrar um discurso ensaiado, as ações erradas e impensadas de seus personagens soam mais que qualquer fala ensaiada.

Próximo do final, há um encarar mortal entre dois personagens, que mostra o quão feroz um deles se tornou, remontando a situação de predação e intimidade que se estabeleceu no início, invertendo-se os papéis. O jogo de cena envolvendo a perseguição que acontece num lugar fechado é frenética e de perder o fôlego, lembra momentos clássicos de Lady Snowblood, Kill Bill e Thriller: A Cruel Picture, inclusive com uma exploração visual do sangue muito grande, seja com ele espalhando pela parede, dando a sensação de que a morte habita aquela casa isolada, quanto no chão, sendo objeto aí de tropeço.

A revanche prevista no nome do filme não é alcançada de modo limpo, e sim de um jeito imundo, mostrando que para se ter o que quer neste quesito é preciso mergulhar muito fundo na podridão da alma humana, recorrendo até a selvageria para atingir seus fins, e por mostrar todo esse processo de maneira crua, Vingança acerta demais, sem romantizar em momento algum os tipos de violência que bem explora.

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