Crítica | As Viuvas

Steve McQueen é um diretor que mesmo com poucos elementos em sua filmografia sempre causa alvoroço no publico e na crítica. As Viúvas era um filme bastante esperado, não só por ser um retorno depois de cinco anos de lançado 12 Anos de Escravidão, e também graças ao elenco muito estrelado, comandado por Viola Davis e acompanhado por tantas outras estrelas, como Colin Farrell, Robert Duvall e Liam Neeson. O thriller inicia mostrando o casal Rawlings, Veronica e Harry (Davis e Neeson), vivendo sua intimidade de modo luxuoso e hordeiro, até que o trabalho como assaltante do homem dar errado, em uma sucessão de eventos violentos e trágicos, que chacina todos os integrantes, cada um deles deixando para trás uma parceira.

Logo, é mostrado outro quadro, uma disputa política entre candidatos a vereador de uma comunidade de Chicago, disputada basicamente por Jack Mulligan (Farrell), um político tradicional, herdeiro do já idoso Tom Mulligan (Duvall) que está em vias de se aposentar, e o negro Jamal Manning (Brian Tyree Henry), um sujeito ligado ao crime organizado das redondezas, normalmente acompanhado por Jatemme (Daniel Kaluuya), seu parente que coloca mais a mão na massa dentro do modus operandi ultra violento típico das gangues.

Dado o cenário, Veronica é encurralada por Jamal, que quebra o protocolo da suposta trégua que estava implícita dentro de sua campanha, basicamente para ameaçar pessoalmente a mulher, acusando seu marido de te-lo roubado, daí, as outras viúvas Linda (Michelle Rodriguez) Alice (Elizabeth Debicki) e Amanda (Carrie Coon) são chamadas pela primeira, para tentar se organizar e tentar levantar algum dinheiro, levando em conta o trabalho dos seus pares que não estão mais lá.

Apesar de ter um elenco grande não só no número de estrelas como na quantidade de pessoas mostradas, há um mergulho na intimidade das personagens, em especial a já citada Veronica, que permite a Viola desempenhar alguns momentos em que ela está só com câmera e onde suas angustias são mostradas através do derramar de sua alma, tanto quanto aparecem sozinha ou quando lida de maneira agressiva com as outras, além é claro de Linda e Alice. Dentro do seu universo particular cada uma delas tem desolações, decepções e contato com o que há de mais nefasto e mesquinho da vida humana.

O filme é baseado no livro homônimo Lynda La Plante, o roteiro fica a cargo do cineasta e de Gilian Flynn e se nota a influencia da autora de Garota Exemplar, principalmente no equilíbrio entre os aspectos de thriller e os elementos de filme de assalto. McQueen consegue podar bem os excessos de Gillian e se mostra mais firme até que Fincher. Sem dúvida alguma esse é bem mais equilibrado e interessante que Lugares Escuros, em especial porque mesmo personagens secundários, como Belle (Cynthia Erivo), parecem realistas, tem profundidade, quando se assiste esses em tela se entende perfeitamente as dores que elas vivem.

As Viúvas é pautado na mistura de apreensão, suspense, sentimento e expectativa pela inabilidade das personagens em nunca terem executado o que tem que fazer e pela coragem de assaltar mesmo sem essa expertise, além de apresentar um cenário político muito rico e tangível, mesmo levando em consideração que o cenário político social de Chicago ser completamente diferente da política da America do Sul, até essas diferenças são muito bem explicadas. A sensação de que tudo que ocorre com as viúvas só acontece por falta de opção é desconstruída e mostrado como uma opção não obrigatória, uma vez que as mulheres tem caminhos não tão simplesmente traçados por uma questão de predestinação, além disso, há uma sensibilidade enorme da direção com todas as reviravoltas da trama, tornando até palatável a quantidade de tentativas de plot twists apresentados, tudo soa tão natural que até a suposta artificialidade é driblada e isso é muito mérito do realizador.

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