Crítica | Viver É Fácil Com Os Olhos Fechados

viverOs road-movie nos conquistam pelo seu desprendimento e sua falta de responsabilidade com narrativas lineares que desconstroem a coerência de fórmulas extintas ou incongruentes para a atualidade, de um Cinema leve e solto como Paris/Texas ou Além da Estrada tão bem representam, e o fazem a olhos nus. A estrada nos oferece salvação, danação, nos oferece um esquecer, mesmo que breve, dos problemas que tentamos deixar para trás, nos oferece perigo e nos blinda da rotina da qual escapamos a cada quilômetro rodado. Foi com Corrida Sem Fim, do genial Monte Hellman, em 1971, que uma geração inteira ganhou representação através da rebeldia e do desejo de libertação dos dogmas do passado, tudo filmado à base de asfalto e cheiro de gasolina (O passado não mais existe, e o futuro está sempre além da próxima curva). É claro que depois vieram Godard, Miller, Rocha, Lynch e Spielberg, todos se aventurando pela estrada, até chegarmos a 2013, até o momento presente, o futuro que ninguém se interessou.

Todavia, Viver É Fácil Com Os Olhos Fechados merece destaque no subgênero de estradas e horizontes por apresentar como protagonista-mote um professor, numa clara analogia ao aprendizado que o tempo nos traz, na exuberância de situações feel-good ou conflitantes que a estrada acarreta a quem se aventura por suas veredas. O tempo da película é calcado em leveza e numa moral da história que, por combinar com a essência do filme inteiro, mantida num bom fluxo e ritmo de digressões positivas e propositais, torna a obra uma experiência completa em suas pretensões, sendo essas reforçadas pelas músicas dos Beatles, banda reverenciada o tempo todo e que condiz, totalmente, com os elos emocionais que o filme deseja traçar com o espectador.

Acontece que nos anos 60, o emotivo e impulsivo Antonio (Javier Cámara, um dos musos de Almodóvar) atravessa a Espanha para encontrar seu grande ídolo, John Lennon, e no meio do trajeto conhece a moça Belém e o garoto Juanjo, típicos personagens de road-movie em típicas situações de pássaros livres, sem teto ou destino traçados. Contudo, é nos clichês que o filme aposta ao reciclá-los de maneira tão jovial e descompromissada, até mesmo divertida, tendo na persona dos três protagonistas o poder de compor um filme triplo, dentro de um só. Quando o protagonismo coletivo conta uma história, feito os recentes Spotlight e Branco Sai, Preto Fica, o resultado quase sempre é melhor, e neste caso, com certeza o é, deixa o filme ainda mais adorável, seja exibido numa iminente sessão ao ar livre, seja com toda a família.

Só pra fechar, nota-se como é curioso, em especial e demasia, assistir a como o cinema nos quatro cantos do mundo está se aventurando cada vez mais em gêneros, e subgêneros, que só expandem as possibilidades de experimentação artística. Seja no Brasil, no Irã ou na Suécia, são menos previsíveis os estereótipos dos Cinemas desses países. Não se espera mais apenas filmes de deserto do Irã, ou os mesmos dramas repetitivos da Suécia, ou só filmes carnavalescos de técnica fraca da América Latina. Outros contornos parecem se desenvolver, e outros tipos de cinema procuram se reinventar no decorrer das rodovias do tempo. E é nesse meio tempo, como já acontece, que vamos começar a apreciar cada vez mais e melhor outros gêneros, formas e ensejos que, inevitavelmente, surgirão prontos a debulhar mundo afora e adentro das telinhas e das telonas por onde não deixamos de nos aventurar.