Crítica | Vox Lux

Vox Lux é um filme dividido basicamente em dois pedaços, um primeiro mais introspectivo e ligado ao passado da personagem principal, Celeste, e outro histérico e engraçado, sobre a fase adulta da mesma. Entre essas duas partes, há em comum a narração de Willem Dafoe, afirmando que aquela historia começou no ano de 1986, que se referiria ao nascimento da personagem, mas o chamado a aventura começa de fato em 1999, com o prelúdio.

Celeste, vivida aqui por Raffey Cassidy, é chamada alegremente pela professora para que faça uma intervenção em discurso. A oração que a menina faria é interrompida por uma invasão, de um rapaz que Celeste conhecia e que era fã de heavy metal. O mesmo abre fogo na sala de aula, deixando a todos desesperados, alveja a professora depois, ele conversa com a protagonista e atira nela, para logo depois se matar. O projétil acerta a espinha da menina e ela milagrosamente sobrevive, apesar de quase ficar paralitica.

Os créditos iniciais são mostrados de maneira bem criativa, e de certa forma emulam o modo como o restante da historia. Os rumos que a vida de Celeste e de sua Irmã Eleanor (Stacy Martin) toma é completamente imprevisível. Para celebrar a vida e a sobrevivência elas gravam uma música, composta pela irmã que não sofreu o agouro mais cantada pela que levou o tiro. Aos poucos, o hobby se torna um trabalho, ao ponto delas precisarem de sessões profissionais de gravação. É disposto a elas um produtor pessoal, um manager que é interpretado por Jude Law e ele permanece junto as duas o filme inteiro, e tal qual boa parte das pessoas que não estão no epicentro da egotrip em que o filme se torna, ele simplesmente não tem nome.

Quando o incidente toca Celeste ela só tem 14 anos, e uma das pessoas que a assessora junto a gravadora, a publicitária Josie, interpretada por Jennifer Ehls, diz que futuras músicas não serão necessariamente sucessos. Essa questão é minimizada por Law, mas se nota um ressentimento por parte da garota, ainda nesta fase. Um fato ocorre, em meio a uma das turnês, Celeste se envolve com um roqueiro, que faz lembrar o repertorio musical do jovem que protagonizou o atentado contra si e desse encontro vem um fruto, talvez ai more o fator de virada na vida dela, o fato que consumou sua fama para alem de uma cantora mirim de um sucesso só.

Vox Lux conversa muito com o filme anterior de Brian Corbet. Em comum com Infância de Um Líder, há a exploração psicológica da criança protagonista – aqui no caso, adolescente, mas vá lá – mostrando esses dois personagens infantis como algo além da simples presença fofa e inocente que é comum a esse tipo de abordagem. Nem Celeste e nem o protagonista do outro filme Prescott são ingênuos e há em ambos a sensação de que se está explorando a gênese de um mal, sendo na outra as raízes do fascismo governamental e neste a origem de uma artista mesquinha e egocêntrica, capaz de humilhar todos que a cercam.

Quando Natalie Portman entra no filme como a versão diva pop de Celeste o caráter muda e esse é o tomo dois da historia. A base construída até então serve para mostrar o declínio moral que a personagem teve, se rendendo completamente egotrip provinda da fama repentina, além de julgar que os exageros e excessos típicos da fama fazem prejudicar principalmente o desempenho artístico e a criatividade da, agora, musa. No entanto o insucesso emocional da personagem é muito bem utilizado no filme, e seus devaneios causam muito riso.

Não se sabe os motivos para a transformação que Celeste tem, se todo o conjunto de defeitos que  ela demonstra estava adormecido e a perda da inocência tão jovem fez isso aflorar sem freio ou se ela ganhou esses predicados com o tempo. O filme não se preocupa em dar uma origem a isso, e tal qual A Infância de Um Líder, não há qualquer receio em se dar uma origem certeira para o egoísmo, e nesse ponto, é um acerto enorme de Vox Lux, pois o texto julga a personagem mesquinha, assim como trata os seus seguidores como uma horda de idiotas sem critério e que consomem qualquer lixo que venha com uma embalagem colorida e atrativa, tal qual seria com Prescott.

Ainda no começo do segundo ato, chamado de Regência, acontece outro atentado, com pessoas vestidas com máscaras do clipe Hologram, que era um dos trabalhos anteriores de Celeste antes desse que dá nome ao filme. Por mais que não assuma, Celeste sofre um baque por ter os símbolos da sua carreira ligados ao terrorismo, e essa retro alimentação do terror faz ela reagir emocionalmente de maneira imatura, se deixando levar pela raiva ao responder os impropérios da imprensa, mas sem perder a pose de inabalável. Seu derramar de alma e espírito acontece para poucos, para os seus.

Apesar de nessa fase adulta ela ser vaidosa, vazia e egocêntrica, dramática e odiável, em especial com sua irmã que sempre esteve consigo e com sua filha Albertine, que também é feita Cassidy, é impossível não se sentir seduzido pela face de Celeste que Portman emprega, não só pela beleza da estrela de Cisne Negro e outros produtos, mas sim por seu carisma. O histrionismo e over acting são muito bem empregados e há alguns climaces seguidos, e por incrível que pareça eles não enfraquecem uns aos outros, só fortificam, transformando a bad trip da personagem em um mini número de opera, grandiosamente filmado aliás, com toda insegurança, ansiedade e catastrofismo que uma estrela pode exercer e ter.

O finale, com a chegada do show Vox Lux, acontece com uma apresentação praticamente perfeita, que surpreende por funcionar apesar de toda fogueira de vaidades que permeia as quase duas horas do filme. Incrivelmente, as duas horas passam extremamente rápido, dada a gangorra emocional que se agrava nos momentos finais do filme. A camada superficial é extremamente divertida, mas suas outras camadas são profundas e reflete sobre o que faz sucesso e porque faz sucesso, através de um personagem cujo ego é grande e que conta com uma mente destruída e um espírito falido e que faz perguntar se há ali um pacto satânico.

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