Crítica | Winning Time: Reggie Miller vs The New York Knicks

Documentário 30 for 30 da Espn, conduzido por Dan Klores, Winning Time: Reggie Miller vs The New York Knicks aborda um jogo (na verdade, uma série de jogos) lendário, focado bastante nesse primeiro confronto de semifinais da Eastern Conference (também conhecida como Conferência Leste), entre o Pacers e Knicks, no ano de 1995. Nesse início, antes mesmo de se falar da personalidade forte de Miller, há um lembrete, de ele, o ala-armador de Indiana tentou cumprimentar John Starcks, jogador do adversário pelos idos do mata-mata, mas não recebeu o mesmo tratamento cordial dele.

Reggie é tratado como um dos maiores manipuladores do jogo em quadra em sua época, e não é à toa. Ele evocava o pior do temperamento de seus adversários, mas a irritação que ele causava era (supostamente) fruto de sua qualidade em quadra, embora alguns adversários declarem que odeiam ele, como Patrick Ewing, que até afirma que o odiava. A realidade é que ele chegou a irritar até Michael Jordan. Ele fingia falsas contusões, atrapalhava a visão do adversário em quadra  estendendo a mão aberta sobre o rosto dos  rivais, falava o tempo todo praticando o famigerado trash talk. – esse .Um dos principais alvos disso, foi Starcks, que saiu do jogo exatamente por perder a cabeça contra ele durante os confrontos.

Miller era um sujeito bem engraçado, ele afirma na frente das câmeras, na época que é um cara bom, mas no documentário afirma que se soubesse que a mãe de Starcks reclamou com Ewing sobre ele ser violento com seu filho, certamente usaria isso demais em quadra. A realidade é que o ala-armador era amado pelos seus, apesar de todos os pesares. Antes de se profissionalizar, ele era mais conhecido por ser irmão de Cheryl Miller (que aliás, é uma das entrevistadas também, junto a  Ewing e o próprio Reggie), que era uma promissora jogadora. O dirigente que escolheu Reggie no draft foi até ameaçado de morte, pois a expectativa era que se trouxesse Steve Alford, que era de Indiana, que por sua vez, era um rapaz branco, carismático, com pose de bom moço e que certamente seria o casamento perfeito com o time. Não demorou muito para se reverter esse quadro e essa parte do filme conversa bem com outro 30 for 30, This Magic Moment, no momento que se fala da contratação de Penny Hardaway, escolhido pelo Orlando Magics e que também se tornou ídolo da franquia. Essa era historia meio comum na NBA, de figuras rejeitadas darem a volta por cima e sem muita demora.

O filme  resgata muito da memória dos anos 80 nos Knicks, da época das vacas magras até o draft em que Ewing foi a escolha primaria e reforçou o time de Nova York, e esse panorama é importante de ser estabelecida até para entender o barril de pólvora que foi toda essa luta, e incrivelmente o filme consegue explicitar muitos aspectos bem diferentes em apenas 69 minutos, que são inteiramente divertidos, especialmente quando mostra a briga entre Reggie e Spike Lee, diretor de cinema fanático pelo Knicks e que ficava a beira da quadra brigando com o ala. Os dois elevaram a rivalidade a um nível tão alto, que fizeram uma aposta, se Knicks vencesse, Reggie teria q visitar Mike Tyson na prisão , se Indiana passasse, a esposa de Miller teria um papel no próximo filme do cineasta, e toda essa gracinha torna ainda mais hilário o filme, cujo formato é bem engraçado, mostrando essas “briguinhas” de maneira dinâmica, aumentando a expectativa do duelo de titãs que ocorreria entre as duas franquias.

A provocação de Lee gerava controversia, especialmente depois que Reggie “venceu”. Para os apoiadores do Paces, a provocação do cineasta soava como a dos garotos ruins de bola, que ficavam do lado de fora enchendo quem estava em quadra. Para a imprensa – o Daily News deu  isso na capa – Spike atrapalhou o time, ao irritar e inspirar Miller a jogar de maneira matadora, pois esse elemento externo que ele era e a encheção de paciência extrapolava o direito dele de pagar mais caro para estar próximo do jogo. Ele respirava o mesmo ar dos times, mas não suava o mesmo suor, mas tinha privilégios, e evidentemente que isso tem repercussão fora de quadra. Lee, ao ir em Indiana foi muito hostilizado, e para ele, isso era fruto (também) de Indiana ser o berço da Ku Klux Klan e que isso ajudaria a explicar o tamanho da raiva da torcida adversária a si, com proporções de ódio exageradas ou não,  ele se prontificou a ir para o jogo.

O ala armador continua sendo considerado o único adversário dos Knicks nos 7 jogos, o responsável pela derrota ou pela vitória , mas sua influencia emocional ia muito além até da desestabilização emocional de Starks (que em um dos jogos, errou uma série grande de lances livres que poderiam lhe dar a vitória), pois num ultimo momento, até Ewing erra, ao bater a bola da virada no aro, indo para fora a chance de titulo em cima de Miller e do Knicks. Winning Time é um filme que transborda carisma, mostra um personagem rico, inteligente, amado e odiado – bem diferente de Christian Laettner, protagonista de I Hate Christian Lattener, outro excelente documentário – e fala um bocado sobre duas franquias que desde essa época, não tiveram títulos, ou grande disputas, e essa riqueza de detalhes ajuda a explicar um pouco da mitologia em volta da NBA que vai muito além de finais e títulos, dando voz a pessoas e times normalmente excluídos dos maiores holofotes do basquete americano.

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