Crítica | Z: A Cidade Perdida

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Baseado no livro homônimo do repórter da New Yorker, David Grann, com roteiro e direção de James Gray, Z: A Cidade Perdida conta a história de Percy Harrison Fawcett (Charlie Hunnam) – explorador britânico que, em 1925, prometendo fazer uma das mais importantes descobertas arqueológicas da história, desapareceu em uma expedição à Amazônia cujo objetivo era encontrar uma antiga civilização. Sabe-se hoje que a suposta localização dessa civilização, para onde se dirigiu Fawcett, é na Serra do Roncador, em Barra do Garças, no estado do Mato Grosso, Brasil.

Considerado um dos maiores mistérios do período das grandes expedições do início do século XX, o destino de Fawcett tornou-se uma obsessão para centenas de viajantes que o seguiram pela selva impenetrável. Inclusive Grann que, durante sua pesquisa para o livro, embrenhou-se na mata para, entre outras coisas, tentar resolver esse mistério e entender a pulsão obsessiva do explorador em relação à existência dessa civilização perdida e sua cidade.

Fawcett começou a explorar a Amazônia em 1906, numa missão de mapeamento do interior da mata e delimitação de fronteiras em Brasil e Bolívia, organizada pela Royal Geographical Society. Explorou a Amazônia quase pelas duas décadas seguintes, em mais sete expedições. Retornou a Inglaterra para servir ao exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial, mas logo após o fim da guerra retornou ao Brasil para estudar a fauna e arqueologia local. Durante todo esse tempo, começou a juntar evidências que o levaram a acreditar que havia existido uma civilização muito antiga na selva. Depois de anos juntando evidências e obcecado por encontrar tal lugar, que ele batizou de Cidade de Z,  e embarcou no que seria sua última expedição, em 1925. Levou consigo apenas duas pessoas: seu filho mais velho, Jack (Tom Holland), então com 21 anos, e o melhor amigo de Jack, Raleigh Rimell.

É compreensível que entre a história real e o filme existam algumas diferenças. Por exemplo, no filme, Fawcett fez apenas 3 expedições à Amazônia e apenas Jack o acompanhou na expedição de 1925. Não haveria tempo hábil para mostrar suas expedições todas, assim como ficaria forçada a introdução de um personagem de última hora, Rimell, apenas para manter a fidelidade histórica. Mas há algo em que o roteiro falha fragorosamente: transpor a obsessão de Fawcett para a tela. E não é falha na interpretação de Hunnam. Simplesmente não há indícios no roteiro de que sua vida girava em torno da busca obsessiva por Z. No máximo, ele parece um explorador insistente ou talvez apenas teimoso, mas não obsessivo. Algo que corrobora isso é o fato de que, no filme, quem o “convence” a organizar essa última expedição é Jack, enquanto que, na realidade o explorador continuava querendo confirmar sua tese e é ele quem convida Jack e Rimell para acompanhá-lo.

Mesmo para quem não leu o livro, baseando-se na sinopse, espera-se que seja algo aventuresco. Não necessariamente repleto de ação, mas com dinamismo, intensidade (característica sempre citada em descrições de Fawcett). Também não precisaria ser um Indiana Jones – mesmo que o arqueólogo tenha servido de inspiração para o personagem famoso – mas era de se esperar que fosse menos morno e insosso. Afinal, embrenhar-se na selva com os parcos recursos e conhecimentos da época era, com certeza, uma aventura.

Em certo ponto da primeira expedição, tem-se a impressão de que talvez o roteiro seguiria por um caminho semelhante a Apocalipse Now ou mesmo Fitzcarraldo. Mas foi apenas mais um palpite que não se concretizou. O ritmo da narrativo segue lento do início ao fim. E, mesmo momentos que poderiam prender o espectador se desenrolam de forma previsível e desinteressante.

Em algumas cenas, parece que Nina Fawcett (Sienna Miller), esposa de Fawcett, e os filhos irão forçá-lo
a escolher entre a família e sua obsessão, confrontando-o duramente, questionando-o sobre seu papel. Porém é apenas uma ameaça. Há todo esse pano de fundo em sua vida que poderia ser melhor explorado num filme de 140 minutos e que permanece apenas insinuado.

A fotografia é boa, mesmo não conseguindo criar no público a sensação claustrofóbica de estar confinado na mata fechada. Figurino bastante competente e maquiagem OK, apesar de não envelhecer Hunnam o suficiente na última parte do filme.

Z: A Cidade Perdida é um filme longo que, se não cativa pela aventura, é um bom retrato de um dos últimos exploradores solitários do século passado e certamente desperta nos que se interessam pelo assunto o desejo de ler o livro em que se baseia o filme.

Texto de autoria de Cristine Tellier.