Piores Filmes de 2017

2017 chegou ao fim e com ele uma série de filmes que adoraríamos não ter visto. Mas como não é o caso, decidimos fazer aquele resgate heroico de tudo o que tem de mais descartável nos cinemas no ano que passou.

10. Rei Arthur: A Lenda da Espada (Guy Ritchie, 2017) – Por Douglas Olive

Quando uma adaptação já nasce cansada e sem ninguém ter pedido por ela. Rei Arthur: A Lenda da Espada revive o mito e acrescenta suas doses cavalares, descerebradas e explosivas (literalmente) de cafonice pirotécnica a um mundo medieval que observa, impune, valores típicos como honra, dignidade, nobreza, aqui traduzidos por um mero show de efeitos especiais de quem achou ter em mãos uma das “crônicas” fantásticas de George R. R. Martin.

Pois cronicamente esquizofrênica e fatigada pelo que de mais ostenta, ou seja, um bando interminável de absurdos que nada acrescentam a jornada do herói, descaracterizado e aqui visto mais como um misto de heróis dos selos Marvel e DC, senão barulho e lutas de péssimo e apático gosto estético. A adaptação de Guy Ritchie de rock and roll não tem nada, e a intenção de se fazer um tour de force medieval até que foi nobre, sim, mas Ritchie, e não Ridley Scott, graças a Deus, foi brincar de ser George Miller no filme errado. Ele deveria saber o que é um épico antes de se mergulhar em sentimentalismo melodramático pra fazer o seu exemplar que de lendário, não detém de nada.

9. Boneco de Neve (Tomas Alfredson, 2017) – Por David Matheus Nunes

Boneco de Neve é uma adaptação do best-seller de mesmo nome do ótimo autor Jo Nesbo. Era um filme que tinha tudo pra ser um dos melhores thrillers de suspense já lançados e até mesmo figurar no hall da fama do gênero, mas infelizmente, deu errado. Deu muito errado, mesmo. Com um elenco de nomes fortes em Hollywood, como Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsburg, J. K. Simmons, Val Kilmer, Toby Jones e Chloë Sevigny, a produção passou por diversos problemas desde antes de seu nascimento, até seu fatídico desfecho nas salas do cinema. Com as datas de início das filmagens bem próximas, a produção só conseguiu o financiamento praticamente em cima da hora e com um prazo bem curto, obrigando os produtores a acelerarem demais as coisas. Além disso, o roteiro que não foi escrito a tempo, foi terminado durante as filmagens. Isso não seria o problema, se algo muito grave não tivesse acontecido.

O diretor Tomas Alfredson (responsável por filmes como Deixa Ela Entrar e O Espião Que Sabia Demais) percebeu na ilha de edições que várias tomadas pertinentes foram perdidas. O resultado? Um desastre. Nas palavras do diretor, eles tiveram que entregar um enorme quebra-cabeça com algumas peças faltando. Problemas técnicos à parte, o filme como história, também não convence. Recheado de críticas, tanto dos especialistas, quanto dos fãs, alguns personagens tiveram suas motivações alteradas e até mesmo acontecimentos que estão nos livros sofreram alterações. Contudo, isso seria normal, se as alterações não fossem para pior. Infelizmente, um filme que gerou as maiores expectativas, mas deixou um gosto muito amargo na boca do expectador.

8. Internet: O Filme (Filippo Capuzzi Lapietra, 2017) – Por Dan Cruz

Nos anos 80 e uma parte dos 90 era comum no cinema brasileiro filmes com as celebridades da época, tanto da música quanto da tevê, em que uma trama rasa servia de desculpa para que Xuxa, Sérgio Mallandro, Faustão, Gugu Liberato, Angélica, todos os membros do Dominó ou Polegar e o elenco dos Trapalhões aparecessem por alguns minutos e arrebanhassem seus fãs adolescentes para as salas de exibição. Internet: O Filme é a versão do século XXI desses filmes caça-níquéis.

Com um elenco formado quase exclusivamente por youtubers, o filme nada mais é do que um desfile de subcelebridades interpretando uma versão tosca deles mesmos. Piadas forçadas e mais constrangedoras do que engraçadas, atuações histriônicas e roteiro fraco, a história se passa em um hotel, durante uma convenção de web celebridades. “História” é modo de dizer: é como se o filme fosse uma série de esquetes mais ou menos costuradas para formar uma narrativa maior, que não convence. Obviamente, o orçamento de cinema garante uma maior qualidade técnica do que um simples celular gravando em um quarto de adolescente, mas isso não é o suficiente para que o filme seja prazeroso de se assistir. De todas as figuras que circulam pelo longa, talvez o personagem de Cauê Moura – também uma versão escrachada de si mesmo – seja a que mais possa gerar uma identificação com o público médio: “Que bosta!”, diria ele durante toda sua participação na película.

7. Death Note (Adam Wingard, 2017) – Por Flávio Vieira

Não sou adepto da teoria de que adaptações do material-fonte devem permanecer fiéis ao original, já que se espera interpretações pontuais. Com isso, é natural que uma obra tome um novo rumo, aprofunde temas em detrimento de outros. A filmografia de ninguém menos que Stanley Kubrick seguiu esse rumo e nos entregou obras magistrais que estão grafadas na história do cinema. Entretanto, não é este o caso de Death Note, projeto de Adam Wingard.

A mudança de locação – do Japão para Seattle – não atrapalha, já que abriria margens para uma abordagem de problemas típicos dos EUA, contudo, o que temos é uma completa falência criativa e destruição dos melhores conceitos existentes no mangá – que está longe de ser algo incontestável. Os personagens são insossos e sem qualquer carisma, o roteiro soa implausível logo nos primeiros minutos, quando o protagonista decide assassinar até mesmo o bully da escola. Qualquer ambiguidade e discussão sobre moral e justiça são abandonados. O diretor demonstra uma confusão extrema com o roteiro e os personagens que têm em mãos, ora abandona um, ora transforma outro de um idiota para um gênio dedutivo sem qualquer explicação, tudo isso ao melhor estilo Premonição genérico. O final horrível, mal ajambrado e apressado diz muito sobre o projeto.

6. Transformers: O Último Cavaleiro (Michael Bay, 2017) – Por Jackson Good

A sensação de que estamos sempre assistindo aos mesmos filmes dentro das mesmas desgastadas franquias bateu forte em 2017. E pódio nesta categoria provavelmente vai para Transformers: O Último Cavaleiro. Este quinto capítulo trouxe de forma exacerbada todos os problemas que vem se repetindo desde o segundo: duração excessiva; roteiro repleto de subtramas mal desenvolvidas e personagens mal aproveitados; esquizofrenia no tom, ora pastelão escatológico ora pretensamente dramático, e cenas de ação que perdem qualquer impacto pois o espectador já está anestesiado diante de tanto exagero.

Na salada que se passa por trama, desta vez descobrimos que os robôs ajudaram o Rei Arthur e desde então tem uma participação secreta na História da humanidade, com Anthony Hopkins vivendo o inevitável velho professor guardião deste conhecimento. Mark Whalberg retorna, protegendo os Autobots caçados pelo governo e uma garotinha sem família que vive com os robôs. Ele ainda acha tempo para um capenga romance à la A Dama e o Vagabundo com uma historiadora descendente de Merlin (sim) e embarca numa caça ao tesouro em busca de mais um artefato poderoso vindo de Cybertron. Ah, e Optimus Prime está no espaço em busca de respostas que irão aprofundar uma mitologia com a qual ninguém se importa mais.

Não há dúvida que, após um primeiro filme genuinamente divertido, a franquia desceu ladeira abaixo no quesito qualidade. Um reboot completo seria bem-vindo; pena que os resultados de bilheteria e as declarações do diretor Michael Bay não sinalizam nenhuma esperança nesse sentido.

5. A Torre Negra (Nikolaj Arcel, 2017) – Por Cristine Tellier

Mais um ótimo exemplo de filme cujo trailer é melhor e basta por si só. Baseada na extensa obra de Stephen King – e talvez a menos conhecida – o filme consegue decepcionar os fãs da série literária e desagradar aos que sequer a conhecem. Ou seja, é uma péssima adaptação e também um filme ruim. Exceto pelos nomes dos personagens, tem pouco a ver com os livros. Por ser pouco fiel, desaponta quem conhece a história. E, por ser pouco explicativo, não consegue cativar quem não a conhece. Tem-se a impressão de que Nikolaj Arcel pouco se esforçou para levar às telas uma narrativa que muitos achavam “inadaptável”. O que deveria ser um projeto ambicioso, não passou de algo morno e visivelmente feito sem paixão. Bom elenco desperdiçado com personagens sem motivação em uma produção superficial.

4. Emoji: O Filme (Tony Leondis, 2017) – Por Flávio Vieira

Com o advento dos smartphones houve uma verdadeira popularização na utilização de emojis como forma de comunicação, ainda que estes tenham sido inventados em 1999. Desde então, alguns intelectuais se manifestam sobre a frivolidade dessa forma de comunicação, já que para eles fica claro a preguiça em se desenvolver a escrita em nossos tempos. Ainda que as críticas sejam válidas, os emojis se tornaram universais, e em 2017 alguém achou que seria uma boa ideia fazer um filme não sobre isso, mas com isso. E por alguma razão, os responsáveis decidiram dar razão a todas as críticas que já existiam muito antes da concepção da ideia de fazer este filme.

Se analisarmos que o filme é destinado ao público infantil as coisas só se tornam ainda piores, já que a produção nada mais é que uma propaganda de aplicativos de quase 1h30 de duração. Além de ter um texto superficial e condescendente à ignorância alheia, onde o fato das pessoas não se comunicarem ou escreverem seja algo louvável. A própria trama se desenvolve em razão disso, e ela sequer teria acontecido se o usuário do Smartphone tivesse optado por escrever um texto (ou falar pessoalmente) para a pessoa, invés de enviar o tal emoji. Ainda que a ideia seja pra lá de esdruxula, Emoji: O Filme poderia ter sido uma surpresa ao abordar esse mundo paralelo de maneira lúdica e divertida, como já aconteceu em outras animações, vide Toy Story, Detona Ralph, Divertida Mente, Uma Aventura LEGO e até mesmo o mediano Pixels, entretanto, ele sequer consegue falar sobre a evolução do poder linguagem. Tome distância.

3. Alien: Covenant (Ridley Scott, 2017) – Por Douglas Olive

Ninguém ainda entendeu quais eram os planos de Ridley Scott aqui. Se a ideia era bagunçar tudo mesmo ou não se levar a sério, mais, após o acerto que foi Perdido em Marte em todos os sentidos. Fato é que o esvaziamento de coerências e significados pertinentes que o zeitgeist cyberpunk desde 1979 adora empunhar com a clássica franquia Alien e o que ela gerou de influência nos debates afora sobre a arte do horror no cinema e nas artes, em geral, encontrou aqui seu triângulo das bermudas, e sumiu depois de Alien: Covenant. É o pai destruindo a sua cria.

Encontrar uma motivação é como querer enfrentar uma criatura dessas com uma faca de cozinha: impossível, meu amigo. Resta-nos especular o que levou um cineasta a negar praticamente todos os méritos de outrora que levaram a sua criação mais famosa ao estrelato, e se entregar a uma banalidade mais que revoltante, como se trilhar o caminho do ridículo e da cópia extremamente malfeita do que ele próprio já fez fosse a única opção cinematograficamente viável, cinco anos após o medíocre Prometheus. O novo filme segue sendo uma peça de suspense espacial muito mais absurda e inexplicavelmente decepcionante. Se os apelos visuais aqui em partes ainda convencem, futuramente aguentarão mais que um curta-metragem.

2. Assassin’s Creed (Justin Kurzel , 2016) – Por Bernardo Mazzei

Adaptações de games sempre geram filmes ruins. Um ou outro fica assistível, mas na maioria das vezes são filmes bem ruins. Assassin’s Creed, mesmo sob supervisão da Ubisoft, não conseguiu ser mais do que medíocre. É o que acontece quando o roteirista de Macbeth se une à dupla de roteiristas de um filme estrelado pelas gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen.

Com uma trama mais confusa do que a da série de jogos e que chega a ofender a inteligência de quem está assistindo, Assassin’s Creed até tem algumas cenas bonitas. Porém, o diretor Justin Kurzel não repete o bom trabalho de seu último longa e entrega um filme bastante ruim. Kurzel tem dificuldade em encadear as cenas de ação e abusa dos cortes, fazendo com que tudo seja confuso e cansativo para o espectador. O elenco também não ajuda em nada, ainda que Michael Fassbender se esforce para dar credibilidade para seu personagem. No entanto, ele é tão mal construído, que o esforço do ator é totalmente em vão. O mais louco de tudo é que uma sequência está nos planos da produtora, visto que a película deu lucro e seu final tem um gancho para uma segunda parte.

1. A Múmia (Alex Kurtzman, 2017) – Por Felipe Freitas

Tom Cruise já está em um nível que não há mais “filmes de ação”, e sim “filmes do Tom Cruise“. O ator criou uma fórmula de puro sucesso com a franquia Missão: Impossível, sem dúvida. O problema foi quando decidiram misturar esses filmes com um icônico monstro da Universal. Na tentativa de criar um universo compartilhado aos moldes da Marvel, o estúdio preparou A Múmia como o pontapé inicial desse universo sombrio, e o resultado não poderia ser mais desastroso.

Tão confuso quanto, o longa parece uma criança ansiosa com um brinquedo nas mãos. É mais preocupado em dar pistas do próprio universo do que desenvolver o monstro da vez. A múmia é desprovida de motivações e não cumpre nem o papel de causar medo. Como já dito, é muito mais um filme do Cruise correndo absurdamente rápido, pulando grandes distâncias e fazendo piadinhas do que um filme de monstro. Mas tudo em um nível abaixo, bem abaixo, de tudo que ele já fez. O primeiro ato não decide o que quer ser, o segundo é entupido por uma atuação vergonhosa de Russell Crowe e o terceiro aposta em amor e heroísmo, o que acaba enterrando o filme de vez. Um péssimo começo de universo, sem o mínimo de inspiração e ainda carrega o fardo de manchar um dos títulos mais importantes do estúdio. E o pior, nem a diversão é garantida.

Participaram desta votação: Bernardo Mazzei, Cristine Tellier, Dan Cruz, David Matheus Nunes, Douglas Olive, Felipe Freitas, Filipe Pereira, Flávio Vieira, Jackson Good e Tiago Lopes

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