Review | Machinarium

Machinarium é um jogo de arte, seguindo a forma de rotular filmes mais autorais, belos, como filmes de arte. Que eu me lembre esse rótulo artístico para jogos, começou com Braid, que é outro jogo fantástico. E eu coloco Machinarium no mesmo patamar, cada um a seu estilo, é claro.

Pra variar, esse é mais um review em que abordo um adventure point and click, meu gênero de jogos favorito. E que está muito em voga novamente, talvez vivendo sua era de prata. Já que a era de ouro, foi lá atras, entre Day of The Tentacle de 1993 e Grim Fandango de 1998.

Mas vamos ao jogo. Machinarium, é um jogo de uma produtora independente chamada Amanita Design, da Republica Tcheca (País que está ganhando tradição na produção de jogos independentes).

O primeiro ponto a se destacar, com certeza é a arte visual do jogo, feita por Adolf Lachman, que é simplesmente impecável. Ele é um jogo desenhado por assim dizer. Todos os cenários e personagens, contam com uma riqueza de detalhes incrível. Eu não sei bem como classificar um traço de desenho, mas eu chamaria de um traço sujo e nervoso, que ao mesmo tempo em que se preocupa com muitos detalhes, não almeja que tudo seja esteticamente perfeito e asseado. Alia-se a isso um clima, steampunk surrealista em um mundo de robôs e você tem uma simbiose perfeita entre a arte e a proposta do jogo, dando uma sensação de estar jogando uma espécie de sonho, no sentido literal e não poético.

Não por acaso Machinarium foi o vencedor do prêmio em excelência em arte visual, do IGF (Independent Games Festival). Muitas vezes, eu não ficava chateado por estar agarrado em algum puzzle realmente difícil do jogo, eu parava pra pensar, contemplando a arte sensacional. Observando cada detalhe do cenário.

Um dos meus cenários favoritos do jogo

Segundo ponto a ressaltar: toda a parte sonora, seja ela trilha incidental de fundo e efeitos sonoros de forma geral. Muitos jogos independentes, tendem a deixar essa parte de lado, ou dar menos importância a ela, nesse caso que envolve robôs, ainda por cima, é muito fácil cair no clichê dos Apple Loops, para sonorizar os efeitos. E pelo contrário, a trilha sonora, é ótima. Ao comprar o jogo, direto pelo site, você recebe os mp3, e com certeza, enquanto escrevo esse review, é ela que está tocando. Além disso, toda a parte de efeitos sonoros unidos à trilha, demonstram um cuidado extremo, para compor o clima perfeito para cada situação do jogo. A trilha original é uma composição de Tomás ‘Floex’ Dvorak. E o designer de som, é Tomás ‘Pif’ Dvorak.

Um terceiro ponto e não menos importante, até porque caso fosse ruim, não haveria arte ou som que salvasse, é a dinâmica do adventure e dos puzzles. E eu posso dizer, que são fantásticos. Havia muito que não jogava um adventure que exigisse tanto do jogador, e que não fizesse concessões àqueles mais preguiçosos. Como de costume, cada “tela” tem seus puzzles mais relacionados, mas que entrelaçam um local e outro. E uma coisa muito importante, que é muitas vezes negligenciada nesse tipo de jogo, é que ele tem uma curva de dificuldade, ótima, que começa relativamente fácil, mas segue mostrando qual será a dinâmica e o modo dos desafios do jogo, além do nível de exigência que vai subindo e subindo, obrigando você a pensar diferente do convencional, mas nunca, e isso é muito importante, te deixa num beco sem saída em que a solução seja algo totalmente impensável.

Um jogo, com um nível de dificuldade elevado como esse, tem que contar com um sistema de dicas, e ele está presente, mas não pense que é como no De Volta Para o Futuro: o Jogo, em que as dicas, literalmente falam o que você deve fazer. Em Machinarium, elas são realmente dicas, um leve toque que pode te fazer perceber o que falta. Outra coisa, muito interessante, é que eles incluíram um Detonado dentro do jogo, mas de uma forma muito legal. Ele é um tipo de diário, com cadeado, e o segredo do cadeado é um mini game de naves. E o detonado ainda não é texto, nem vídeo. Ele é uma espécie de história em quadrinhos.

Ainda sobre os puzzles, o jogo têm diversos mini-games internos como o do cadeado, mas nesse caso como parte do desafio, você precisa cumprir o objetivo para continuar a história. Eu particulamente não sou muito fã de mini games obrigatórios, sempre me soa, como um truque para alongar o gameplay, mas em Machinarium eu gostei. Muitos deles achei interessantes, porém houve um em particular que me incomodou muito e um que me deixou meio cabreiro. Meio cabreiro eu fiquei com o Space Invaders (que você terá que jogar uma hora) não tenho problema nenhum com space invaders, até gosto. O problema é que o jogo não te deixa em tela inteira, é apenas um pequeno pedaço da tela, e que ainda é pior, porque eles colocam um filtro, para dar impressão que a tela de arcade que você está jogando é velha e está imunda. Então, eu achei que poderia ter sido melhor pensado.

O segundo, esse me incomodou pra valer, é uma especie de Sokoban dos infernos. Primeiro, eu não suporto sokoban, não me dou bem com a lógica desse tipo de jogo, e não é um sokoban moleza, níveis iniciais, é um puzzle dos infernos numa tela de 5 centímetros, em que eu perdi tranquilo, mais de 1 hora.

A história do jogo em si, é contada, por meio de flashbacks, em bolhas de pensamento na maior parte, em animação. Apesar de ficar em segundo plano, para que o jogo possa se focar no que faz de melhor, que são os puzzles e a parte visual. Ela não decepciona, e te deixa interessado onde tudo aquilo vai dar.

Para finalizar, Machinarium, foi lançado em 2009, para PC e Mac, ele usa a engine de games do Flash. Veja você. E é simplesmente uma obra prima, que ficou tanto tempo até que eu o descobrisse. Se você nunca jogou, nem ao menos sabe do que se trata, veja os vídeos e as imagens desse post, ou do próprio site oficial http://machinarium.net/, o jogo custa U$ 10,00, incluindo as faixas da trilha sonora em MP3, tudo sem DRM. E com certeza, vai garantir boas horas de diversão e desafio.