Review | Gone Home

07 de junho de 1995. Após um ano de viagens pela Europa, Kaitlin resolve voltar para casa. Ela chega ao lar numa madrugada chuvosa e se depara com um bilhete fixado na porta de entrada. É de sua irmã caçula, Sam: “Katie, desculpe não estar aí pra te ver, mas é impossível. Por favor, não tente descobrir para onde fui. Não quero que ninguém saiba. Vamos nos rever algum dia. Te amo. Sam”. A partir daí, Kaitlin resolve vasculhar sua casa para descobrir por que Sam foi embora. De quebra, seus pais também não estão lá.

Gone Home, desenvolvido pela Fullbright Company e lançado para Windows, Mac e Linux, traz uma proposta diferente da maioria dos jogos. Não há inimigos para vencer ou armadilhas das quais fugir. O jogador não morre. O foco se mantém na exploração da casa, vasculhando gavetas e armários para encontrar documentos, cartas, revistas e itens comuns em qualquer residência. Tais coisas contarão a maior parte das histórias. Sim, histórias, no plural. Cada membro da família tem algo a ser descoberto, tornando as coisas mais interessantes. O nível de satisfação estará diretamente ligado ao quanto você se dispor a se aprofundar nas informações.Prepare-se para muita leitura.

É um grande jogo? Não. É ousado? Sim. O escritor Steve Gaynor abordou assuntos pouco usuais e aproveitou sua experiência anterior em Bioshock 2 para criar o estilo narrativo por meio do cenário e exploração em primeira pessoa. Não há personagens para interagir e conversar, a não ser as poucas narrações em off da Sam. O cenário e os itens contarão a história, e exigirá interpretação do jogador. Foi uma proposta diferente, interessante, mas um tanto cansativa. Felizmente o jogo é curto, ideal para esse estilo de narrativa.

A exploração da casa se mantém fluida graças ao bom design. Os itens e documentos estão dispostos de forma que o jogador os encontre em uma ordem razoavelmente lógica. Há muitos cômodos para revirar, todos recheados de coisas a se ver.

Visualmente, Gone Home é bem legal, com gráficos simples e objetos detalhados, apesar da falta de polimento. A baixa otimização torna o jogo pesado sem ter gráficos para justificar tanta exigência da máquina. A física ao arremessar os objetos também não é nenhum primor. Porém, nenhum desses fatores compromete a proposta de Gone Home.

Quanto aos cenários, os elementos anos 1990 espalhados pela casa trazem um ar nostálgico para quem viveu naquela década. Houve uma grande preocupação para compor aquela casa, sendo possível abrir cada gaveta e examinar a maioria dos objetos. Não há música de fundo, exceto em momentos específicos. A trilha ficará a cargo das fitas cassete encontradas pela casa. Quem curtir grunge tosco vai se deleitar. Os demais efeitos sonoros são bons e contribuem para a atmosfera, principalmente os trovões. Foi uma excelente decisão ambientar o jogo numa madrugada chuvosa. Os trovões poderão assustar algumas pessoas enquanto estiverem lendo algum documento ou verificando itens, uma sacada muito bacana. Às vezes o jogador ficará em dúvidas quanto ao gênero deste jogo. Será um game de terror?

Após terminar Gone Home, se você analisar a história, perceberá que não há nada de extraordinário. Pelo contrário, é extremamente comum, com elementos que fogem um pouco do óbvio. Os arcos paralelos acabam sendo até mais interessantes que o paradeiro de Sam. A graça real está no “durante”, na forma que você descobrirá tudo. A história se revela aos poucos por meio da exploração da casa. O jogador vivencia aquilo, e por isso se torna interessante. Se alguém simplesmente te contar a história, é provável que sua reação seja “Ok, legal, mas por que você ficou tão empolgado com isso?”. A experiência de jogo que proporciona tal entusiasmo, mais para alguns do que para outros. Eu gostei da caminhada, achei a história interessante, mas não mudou a minha vida. Em contrapartida, vi muitas pessoas maravilhadas. Por isso, vale a pena se aventurar nesta curta, porém interessante investigação. A grande surpresa do roteiro é ser, de certa forma, comum. Vá de mente aberta e com disposição para leitura e exploração do cenário.

A equipe do Jogabilidade fez uma tradução não-oficial, porém com bastante qualidade. Quem não domina o inglês e quer experimentar Gone Home, confira o trabalho deles aqui.