Review | Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots

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A dinâmica econômica mundial tornou-se um verdadeiro mercado de guerra. No início do século XXI, os exércitos nacionais perderam importância para as PMC (Private Military Company, ou Companhias Militares Privadas), grupos armados que executam diversas tarefas relacionadas a conflitos bélicos, que vão de treinamento dos soldados a participação direta nas frentes de batalha. As PMC movem uma quantia absurda de dinheiro, criando uma hegemonia econômica sem volta. Dentre as inúmeras PMC existentes, cinco possuem maior relevância e destaque. Por uma coincidência (?) mórbida, estas cinco PMC são comandadas pelo nosso velho conhecido Liquid Ocelot, a “entidade” formada pelos dois grandes vilões da saga Metal Gear.

Esse mercado de guerra tornou-se algo tão importante que, para evitar um caos generalizado, criou-se uma regularização rigorosa. Todas as armas vendidas no mundo possuem um sistema de identificação ligado a uma rede central. As armas recebem uma espécie de identificação biométrica limitando o uso daquela arma a apenas uma pessoa. Além disso, é possível travar as armas caso os soldados se envolvam em algum conflito “fora das regras”. Mas o ser humano é ambicioso e criou um mercado paralelo de “lavagem de armas”, que eliminam essa identificação e possibilita qualquer pessoa usá-la. A consequência disso é um mercado negro de armas fora desse sistema de controle.

Solid Snake e Otacom são convocados por Roy Campbell para realizarem um último serviço: eliminar Liquid Ocelot, que planeja impor sua hegemonia mediante as PMC que controla. Não há possibilidade de simplesmente bloquear as cinco PMC, pois elas são responsáveis por um percentual gigante da economia global. Eliminar essas PMC significa destruir a economia mundial. O mais sensato, portanto, é eliminar o cabeça dos planos antes que, efetivamente, os coloque em prática.

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Após dois jogos focados em Big Boss (Metal Gear Solid 3 e Portable Ops), retornamos aos dias atuais para mostrar a conclusão da história de Solid Snake. A primeira coisa que chama a atenção é a aparência do herói. Ele sofreu um envelhecimento precoce e lhe resta pouco tempo de vida. Logo na tela-título vemos Snake, de terno, fumando em um cemitério ao som da melancólica, porém belíssima, música-tema. Este tom de despedida estará presente durante todo o jogo, em momentos fortes e marcantes. O filho de Big Boss terá sua última missão.

Para compensar o enfraquecimento de seu corpo, Snake utiliza uma roupa especial que, além de aumentar um pouco sua força, mudará de cor e textura de acordo com o ambiente, tornando-se uma eficiente camuflagem. Mesmo com a roupa, nosso herói ainda reclamará da dor nas costas se permanecer muito tempo abaixado e parado. É o tipo de detalhe que nosso querido Hideo Kojima adora. Ao redor de Snake há um círculo que permite identificar de onde vêm os sons do ambiente.

O sistema de camuflagem não foi a única herança de Metal Gear Solid 3. As habilidades de CQC (Close Quarters Combat) foram aprimoradas, implementando até a famosa técnica de segurar a faca junto da arma de fogo, algo que Solid Snake não fazia nos jogos anteriores. O próprio Solid Eye, equipamento utilizado por Snake para ter visão noturna e outras funções, lembram um tapa-olho, tal como o de Big Boss, só que utilizado no olho esquerdo ao invés do direito. A barra de stamina (resistência) foi substituída pela de stress, que diminui com a tensão de combate (Snake ser visto ou ferido), ajudando a imersão nesse cenário de guerra. Em algumas situações, a barra foi utilizada como elemento narrativo, aumentando ou diminuindo de acordo com alguma coisa que falam ou fazem com Snake nas cutscenes.

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E falando nas cutscenes, este é o ponto mais controverso do jogo. Muitos criticaram o excesso de partes não jogáveis. Existem muitas? Sim, você deve estar disposto para assistir a vários minutos de ótimas cenas da história. A qualidade da narrativa é incontestável. Pode testar a paciência de alguns jogadores, mas, sinceramente, a narrativa sempre foi o ponto forte de Metal Gear. Quem é fã irá se deliciar com toneladas de diálogos, cenas de ação impressionantes e revelações bombásticas. Durante as cenas, existem pequenos flashs que remetem a cenas dos jogos anteriores, ajudando a criar uma atmosfera nostálgica ao mesmo tempo que enriquece a narrativa. Os diálogos via Codec voltaram com inúmeras linhas de conversa, algo que deixou muito a desejar em Portable Ops.

Alguns momentos trarão duas cenas ao mesmo tempo, em tela dividida, que por um lado é bacana no quesito dinâmica, mas por outro obriga o jogador a ignorar uma das cenas. É impossível acompanhar de maneira efetiva dois acontecimentos simultâneos. Porém, é muito legal batalhar numa metade da tela enquanto um personagem luta na outra.

O jogador poderá coletar armas para trocá-las por pontos. Esses pontos serão usados para comprar novas armas e munições ou aprimorar as que já possuem. É interessante que não será possível utilizar todas as armas coletadas devido ao sistema de identificação. Neste caso, há duas opções: “lavar” a arma para eliminar esse bloqueio ou simplesmente vende-la para adquirir pontos.

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Guns of the Patriots se passa décadas após o jogo anterior. Tudo indicava que a história não puxaria tantas coisas de Snake Eater. Ledo engano. O jogo amarra inúmeras informações de Metal Gear Solid 1, 2 e 3 de uma forma impressionante, e dará diversas porradas na cara do jogador. Há alguns elementos de fan service que deixarão alguns fãs malucos, especialmente aos que apreciam o game do Playstation 1. Vale lembrar que Guns of the Patriots é a continuação de Sons of Liberty.

Não há dúvidas de que este é o jogo mais ambicioso da franquia até então. Ele ocupa praticamente todo o espaço do bluray do Playstation 3 e custou dezenas de milhões de dólares para ser produzido. É possível vislumbrar onde este investimento foi feito, pois o jogo, tecnicamente, é impecável. Os gráficos são excelentes para a época, os cenários muito bem construídos e variados, o gameplay flui satisfatoriamente e se aprimorou bastante em relação aos games anteriores. A ação está um pouco mais direta, às vezes mitiga a criatividade das batalhas de chefe, mas nada que comprometa a qualidade. A batalha final ganhou um gameplay exclusivo àquele momento e tem uma carga emocional comparável ao fim de Snake Eater. A agonia de Snake no decorrer do jogo é impressionante a ponto de causar forte empatia ao jogador. Na reta final então… a mão do joystick chega a tremer.

Metal Gear Solid 4 trouxe um escopo grandioso, algo visto em poucos jogos. A todo momento, temos a impressão de estar jogando algo épico. É satisfatório jogar algo que foi produzido com tanto esmero. Um verdadeiro presente a todos os gamers. Sem dúvidas, um dos melhores jogos de todos os tempos. Exclusivo para Playstation 3.