Review | Vessel

Vessel foi lançado em março de 2012, para Windows, e em setembro para Mac OS e Linux. Desenvolvido pela Strange Loop Games e distribuído por Zoo Games e indiePub Games, é um dos jogos de puzzle e plataforma mais desafiadores e interessantes no cenário pós-Braid.

O personagem principal do jogo é M. Arkwright, uma espécie de cientista maluco que vive em um cenário Steampunk, de pós-Revolução Industrial, talvez final de século XIX. Algo do tipo. O professor Arkwright tem a sua principal invenção, os chamados Fluros, que serão a base de praticamente todos os puzzles do jogo. Esses Fluros são um tipo de autômato desenvolvido para ser designado a tarefas industriais e repetitivas de maneira mais eficiente que os humanos. Eles são compostos quase que em sua totalidade por líquidos de qualquer espécie – água, lava etc. – e tem a capacidade de atrair esses líquidos para si.

Porém, como toda a invenção complexa e revolucionária dá errado, os Fluros começam a sair do controle, causando problemas e fazendo com que as máquinas que operem parem de funcionar. Nosso herói, então, precisa resolver esses problemas, consertar tudo e, além disso, continuar em busca da sua próxima invenção genial.

Vessel é um jogo independente, sem grandes orçamentos. Ao contar essa história, em um grande lançamento, provavelmente seria feito com uma cut-scene, cheia de efeitos, explosões etc. Já aqui, tudo isso é contado por meio de imagens, quadros, e depois um tipo de diário do próprio Arkwright. Mas não se engane: o jogo tem um esmero especial com toda a parte visual, tudo é muito bonito e bem pensado, usando a criatividade para contornar os problemas.

Os puzzles são um mix de plataforma clássica com física e o uso das suas invenções, os Fluros. Nessa parte é fácil perceber que há influencias de Braid, Limbo e até mesmo adventures clássicos no modo de resolver esses quebra-cabeças. A dinâmica de física dos líquidos, ou de como você deve posicionar determinado elemento do mapa, aliada ao jogo de plataforma, funciona muito bem. O jogo tem um esmero especial no comportamento dos líquidos, que são essenciais para a resolução dos problemas. Além disso, você sempre vai ter que usar as habilidades que os diferentes tipos de Fluros possuem para conseguir resolver os puzzles. E, no decorrer do jogo, você recebe também um tipo de pistola que atira e suga vários tipos de líquido, podendo fazer upgrades do tipo de bico da pistola e da capacidade do tanque. Os upgrades são possíveis, por um tipo de líquido, conseguido por puzzles extra.

Os desafios do jogo são bem elaborados, fazendo com que o jogador realmente tenha que pensar. A habilidade com o controle e a rapidez com que se executa as ações quase sempre ficam em segundo plano, para que o importante seja a estratégia do jogador para passar de “fase”. Ainda mais porque em grande parte dos quebra-cabeças, principalmente os mais avançados e difíceis, não há uma solução única, ficando a cargo da criatividade do jogador a tarefa de resolvê-lo da maneira que achar melhor.

O jogo tem nível de dificuldade bem elevado, muitas vezes chegando a níveis frustrantes, em que você vai ter que passar vários e vários minutos para conseguir realizar o que deve ser feito. Portanto não é um jogo para jogar com pressa, querendo chegar ao final logo; se for encarado dessa forma, será altamente frustrante para o jogador. Contribui com isso o fato de o desenvolvedor não estar querendo levar o jogador pela mão. Esse é mais um daqueles jogos em que você está por sua conta, em que a experimentação, tentativa e erro – e só isso – farão você avançar. Me lembro inclusive de uma passagem em que eu tentava descobrir um determinado puzzle, e estava certo de como tinha de fazer, mas não ia de jeito nenhum; cheguei a pensar até que o jogo estava com algum bug. Mas não, era só que eu estava pensando errado.

A trilha sonora, apesar de bastante leve, muitas vezes passa desapercebida. É um elemento fundamental para um jogo em que o objetivo é fundir a sua cuca. Afinal, a última coisa que queremos de um jogo de puzzles é uma trilha chata, que irrite e aumente ainda mais a frustração de estar empacado há meia hora no mesmo lugar. Mesmo assim eu não gostei da escolha, principalmente dos ritmos que foram usados: um tipo de som eletrônico com ar vintage, mas que, naquele universo Steam Punk, para mim ficou dissonante. Nada que atrapalhe o jogo. Mas é um ponto a ser notado.

Se a trilha não me agradou, o visual de Vessel me ganhou na hora. A arte de Vessel é o chamado 2.5D, ou pseudo-3D, muito em voga em jogos de plataforma atuais como New Super Mario Bros, Trine, enfim. Todos os cenários são muito bem trabalhados, com elementos de fundo que se modificam conforme o seu personagem interage com o cenário. A parte dos líquidos e os próprios Fluros são muito bons também. Os Fluros, que são a causa de todo o problema, se tornam, com o passar do tempo, quase que seus amigos de jornada. Mesmo os Fluros malvadões feitos de lava, cujo único objetivo é pegar você, são simpáticos, com um barulho parecido com a fumaça de Lost. Ok, isso não é uma boa referência.

Infelizmente, nem tudo é perfeito. Vessel, apesar de um ótimo jogo, tem diversos bugs, problemas de colisão e movimentação, que às vezes vão trazer situações inusitadas para o jogo, como tentar pular em um botão “clicável” mas em que nosso personagem fica apenas flutuando por cima. Ou ser queimado pela lava, através da parede. Além dos bugs, a movimentação do professor Arkwright me parece um pouco bruta e mal acabada, muitas vezes deixando difícil posicionar algo necessário para a resolução do quebra-cabeça. Essa movimentação também não é horrível a ponto de tornar o jogo péssimo, nada disso, apenas causa estranheza quando comparada com a fluidez dos líquidos do próprio jogo.

Para fechar, Vessel é um excelente jogo de plataforma e puzzle. Com gráficos muito bonitos, a parte sonora ok. Um desafio tremendo. Com puzzles originais que vão colocar sua cabeça pra pensar de verdade, com no mínimo 10 horas de gameplay, e uma história de pano de fundo interessante. O jogo tem alguns bugs e problemas, mas tudo que pode ser perfeitamente relevado se comparado com tudo de bom que o jogo tem pra nos oferecer. Sendo assim, Vessel é um must play, se você gosta de jogos de plataforma, difíceis e que exigem bastante tentativa e erro para chegar ao fim.