Crítica | O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini

Quanto do passado a gente carrega? Difícil não se perguntar isso (e deixar a resposta emergir da nossa alma) no término de O Caçador de Pipas, a famosa história de Khaled Hosseini que evita sequer dedilhar em polêmicas sobre sua região do Oriente Médio, e nos entrega a mais simples e ainda a mais gostosa das narrativas sobre dois garotos que pensavam ser livres, e esse foi o pecado deles em sua “inabalável” amizade. O tempo, esse sim, poderoso, se faz generoso até certo ponto com a sua relação inocente e sincera, mas com um pequeno problema, desde antes dela começar: Amir é um pashtun, e Hassan um hazara, dois povos marcados por conflitos históricos, entre eles, nos quais o povo de Amir levou a melhor. Se Amir e seu pai são ricos, Hassan e seu pai são seus empregados numa suntuosa casa em Cabul, capital do Afeganistão, onde pelo menos neste lar, o amor dos dois meninos não faz germinar o distanciamento classicista entre patrão, e subalternos.

Não deixa de ser curioso, para nós, ocidentais, ver como a rivalidade entre dois (ou mais) povos é capaz de manter por séculos uma profunda relevância no tecido social das relações, em muitas partes do globo. Ao propor um evento célebre em Cabul, ou seja, uma torneio de pipas aonde a última pairando no ar é a vencedora, a competição também racha esse estigma entre povos num jogo justo, em que todos os garotos de Cabul aguardam o ano inteiro para participar – e ganhar, claro. A pipa então assume o papel de união, e também, ironicamente, da separação de uma das mais lindas e emocionantes amizades da literatura contemporânea. Hosseini tem uma graça oriunda de sua escrita simplória, e sem sentimentalismos, ao tentar controlar a enorme força dramática de várias cenas sem deixar tudo muito explícito, ou apologético, sendo que lágrimas ao longo de O Caçador de Pipas já são difíceis de segurar.

Se o pecado foi mesmo ignorar tudo, e apenas viver sua amizade, a trama cruel de um destino inquisidor é o que move esse conto que arrebatou multidões em meio aos livros de Harry Potter, desde o começo dos anos 2000. Ultra acessível, não é à toa o romance ter se tornando um fenômeno desde que foi lançado, em 2003, no mercado editorial americano – e adotado, no Brasil, pela editora Nova Fronteira em 2005, e quase 10 anos depois reeditado pela editora Globo Livros. Mesmo inseparáveis, nota-se a preservação de termos respeitosos pois Amir é o agha do seu melhor amigo, ou seja, seu superior, uma regra ancestral que nem mesmo o carinho deles pode superar, afinal, a realidade é a mesma para todos – nisso, a idade é só um detalhe. “Por você, faria isso mil vezes!”, diz Hassan para Amir, não como empregado, mas aliado em todos os seus momentos. E quando Amir vai para os EUA, rapaz feito já, após tantos anos longe do menino que, órfão, bebeu do mesmo seio que ele, o homem então descobre que fantasmas existem, sim, para todos, e por uma razão muito especial.

A partir disso, O Caçador de Pipas vira uma vasta e semi elegante alegoria sobre a vida pós-separação. Acerca do período adulto que nos molda, e remodela, numa sucessão ininterrupta de altos e baixos a qual damos o nome de maturidade. Um duro e longo mural de coisas não-ditas, ora esquecidas, ora lembradas de uma forma crônica por anos a fio. Não importa aonde fosse, Amir nunca iria esquecer de seu amigo basilar aos seus caminhos, além da tenra infância e de momentos mais simples, quando era possível decodificar o universo e tudo se resumia em correr atrás de pipas, azuis ou vermelhas, e driblar as diferenças que os adultos criam e repassam, de geração em geração. Vez ou outra, o complexo sente falta da simplicidade que deixou para trás; será que até as maiores águias não dispõe de saudade, em seus pequenos cérebros animais, do ninho onde foram empurradas e, assim, aprenderam a voar?

Eis um livro diferente de vários outros bestsellers que, rumo ao sucesso em engajar seu público, não faz devorar temas polêmicos para se sustentar na lista anual dos mais vendidos, nos EUA e no mundo; nada disso. Hosseini explora a cultura afegã e seus valores e costumes como ambientação, rica em detalhes, para algo de caráter universal e impagável: a amizade entre dois garotos, e o amor fraternal que um sente pelo outro, acima de dogmas religiosos ou mundanos, como eles mesmo também admitem, mesmo ainda tão pequenos. Talvez porque a infância atua como um véu a realidade séria e descolorida que pode vir depois, ou ainda, porque essa mesma realidade cheia de regras e limites que nós inventamos ainda não tinha caído em cima deles, feito um tsunami devastador, ou uma de suas pipas, livres no céu como eles e nós, um dia, também almejamos ser.

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