Crítica | Reforma Política – Murillo de Aragão

Não há nada de errado com quem não gosta de política. Simplesmente será governado por aquele que gosta.” – Platão

A reforma do sistema político brasileiro é tão imprescindível ao Brasil, quanto um copo d’água ao pobre coitado que passa dois dias sem uma gota de h2o, em um calor de 40 graus. Murillo de Aragão, por meio de uma extensa pesquisa visando contextualizar, e oferecer propostas e perspectivas claras e objetivas para esta reforma, realiza um trabalho ousado ao revirar a lógica do sistema político do país mais desigual da América Latina, país este que se orgulha em bater no peito, sendo extremamente hipócrita, ao afirmar ser a oitava economia do mundo. Traça-se, aqui, um debate de fácil entendimento, e com gosto de emergência, sobre as raízes de um mecanismo injusto, e sempre à frente dos estudos da ciência política, deste país.

Afinal, como entender absolutamente uma realidade esquizofrênica e imprevisível que faz a trama das primeiras boas temporadas de House of Cards, parecem história para criança? O negócio é tão sério, que muitos inclusive já desistiram de suas análises sobre esse cenário turbulento e inexplicável, resultado de inúmeros interesses obscuros de vários setores do poder no Brasil, e decidiram apenas especular em seus canais de YouTube sobre os futuros utópicos dessa nação – seja sob um viés direitista, ou de esquerda, ou meramente acadêmico. Vale ressaltar que o advogado e cientista político Murillo de Aragão, neste livro da Civilização Brasileira, do grupo editoral Record, não somente prevê os prejuízos aos brasileiros, a médio prazo, dessa desorganização política e partidária que já virou um fator histórico e cada vez mais banal, para todos nós.

Aragão vai muito além, e também expõe os problemas que não são tratados por quem tem o poder para resolvê-los, mas prefere mantê-los para continuar certos privilégios, tais os lucros exorbitantes de certos partidos, fora ou dentro dos períodos eleitorais, e o descontrole das despesas do setor público sem a devida transparência, e rigor, daqueles que deveriam zelar e proteger esses processos e os sistemas regentes da população, em prol dos pilares rachados de bem-estar da sociedade brasileira. Reforma Política vai contra o caráter irreversível dessas rachaduras, e ilustra com propriedade as razões que justificam esta reforma, brevemente elencadas, a seguir: distorção na representatividade parlamentar, mau uso e controle precário de recursos públicos, abuso de poder econômico, utilização ridícula das propagandas partidárias… velhos debates que as enormes injustiças do país não permitem nem que o povo tenha, como tampouco veja a necessidade de se discutir.

O curioso é como o modelo nacional de funcionamento político é, na visão de Aragão, um modelo de transição entre o conservadorismo, e o futuro a ser construído. Entre crises antes resolvidas nos quartéis ou nas ruas, mas que, nas conjunturas do modelo presente, ainda está longe de proporcionar uma democracia verdadeira a nação – em que, na prática, os cidadãos se sintam majoritariamente representados no Congresso Nacional, mas que não sejam obrigados a votar a cada eleição. Os obstáculos atuais são e sempre foram muitos, mas se tudo é política, a população brasileira deve ser politizada a favor de um país melhor, e mais valorizado internamente, e não se permitir rupturas que apenas enfraquecem a luta por uma realidade mais justa, e já enfraquecida por fatores internos, e externos ao Brasil. Ao desvendar o complexo quadro que uma Reforma Política deve enfrentar, a obra deixa claro as motivações para uma batalha por um sistema menos corruptivo e mais são, neste país, sem deixar de lado o valor do caráter democrático, às instituições. Uma ótima leitura, bem fundamentada, elucidativa e sob medida aos que preferem ser tristes, a fugir da realidade das coisas.

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